Volume 2, Número 3 (2012)

Editorial

Apresentamos mais um número de REBELA, continuando a tarefa a que nos propusemos: compartilhar o conhecimento crítico que produzimos sobre Nossa América. Como sempre, o número se caracteriza pelo aporte interdisciplinar e a partir de várias localizações nacionais. Para iniciar, Hugo Lilli discute o sistema internacional defendendo a passagem De uma bipolaridade complementar a outra antagônica, ou seja, entre o bloco do Leste (polo Ártico-Pacífico-Indico) e o do Oeste (polo Atlântico-Mediterrâneo-Pacífico) - o primeiro composto pela Rússia, China e Índia (mais Irã) e o segundo constituído pela América do Norte, Europa Central e Japão (mais Israel). A partir de uma visão latino-americana dos conflitos mundiais atuais, Lilli discute os motivos para a conformação desses dois blocos, sua gênese e a cunha entre os dois, o projeto Grande Oriente Médio, que, em última análise determinará qual dos polos de poder prevalecerá sobre o outro. Dando continuidade à série de trabalhos publicados em números anteriores sobre Che, temos o artigo de Marcos Antonio da Silva e de Guillermo A. Johnson sobre Che Guevara e o Marxismo Latino-Americano: a Críticas da Economia Política.

Os autores analisam a contribuição de Che para o desenvolvimento teórico de um marxismo crítico, humanista e efetivamente latino-americano. Tiago Miguel Knob, em O Desafio da América do Sul sob o prisma de uma Ética da Vida após a consagração da União de Nações Sul-Americanas, discute a potencialidade da União de Nações Sul-Americanas para resolver os mais graves problemas que afetam a região, tais como a pobreza e a miséria persistentes no continente, caso se concentrasse na superação do mito da modernidade eurocêntrica para efetivamente caminhar em direção à busca da autonomia, identidade, soberania e bem viver dos povos. Ainda no tema da integração regional, Felipe Neves Caetano Ribeiro parte do conceito de Estado Constitucional Cooperativo, proposto por Peter Häberle para, no artigo intitulado Normas Constitucionais Programáticas: limites e possibilidades para a consolidação de Estados Constitucionais Cooperativos na Integração Latino-Americana, refletir sobre a complementaridade que as normas constitucionais programáticas voltadas para a integração regional adquirem em um contexto de mudanças no Direito internacional e no Direito interno, decorrentes da globalização econômica, com relação às normas programáticas de finalidade social, face à emergência de desafios comuns aos Estados latino-americanos que podem ser enfrentados, de maneira mais eficaz, conjuntamente.

No artigo intitulado Guatemala, América Central e a assistência estadunidense: fracassou a guerra contra o “crime organizado”?, Silvina Maria Romano enfrenta um dos temas mais relevantes da atualidade, a intervenção dos Estados Unidos encoberta através de mecanismos de assistência, particularmente no âmbito da Iniciativa Regional de Segurança para América Central e através das operações do Comando Sul estadunidense a partir de Honduras. A autora aborda, em especial, alguns aspectos do ocorrido na Guatemala no contexto da região centro-americana, que é percebida como um conjunto homogêneo pelos Estados Unidos; bem como faz referência à relação entre o aumento da assistência militar e o sugestivo aumento de Investimento Estrangeiro Direto na região, orientados para a indústria extrativa. Os dois artigos que seguem trabalham a partir das formulações de dois autores de referência na América Latina: o argentino Raul Prebish e o brasileiro Álvaro Vieira Pinto. No primeiro, Ariel Slipak aborda a relação sino-argentina. Em Revisitando Prebisch no Século XXI: um estudo da relação sino-argentina, o autor parte das transformações ocorridas nas últimas décadas na República Popular da China até sua consolidação como o primeiro exportador mundial de bens o que, somado a crescentes pressões sociais por melhorar a qualidade de vida da população, acelera o consumo de produtos básicos como combustíveis, alimentos e minerais, de maneira tal que assegurá-los passa a ser una política de Estado. Em sua análise Slipak retoma a literatura estruturalista que coloca especial ênfase em estudar a situação de um país periférico em relação à sua posição na hierarquia internacional, supondo que existe a possibilidade de ascensão ou melhora em uma ordem capitalista global. A reconfiguração desse ordenamento a partir do assinalado novo papel da China implica enfocar a problemática dos países periféricos latino-americanos sob outro prisma. Levando isso em consideração, o artigo explora, a partir das proposições de Raúl Prebisch, principal expoente do estruturalismo, a problemática da relação centro-periferia tomando como referência sua obra em Capitalismo Periférico: crisis y transformación, realizando, então, uma leitura da relação sino-argentina a partir do enfoque estruturalista. No segundo, Paulo Abdala enfrenta o tema recorrente da chamada nova classe média, refletindo sobre o tema do consumo e problematizando seus fundamentos teórico-conceituais. Em A Nova Classe Média e a Dialética do Consumo, o autor recorre às proposições de Álvaro Vieira Pinto, com as quais compartilha a crítica ao papel cumprido pela academia ao selecionar e criar modelos convenientes que encobrem as contradições sociais. Suas proposições sobre consumo propiciam um conjunto de conceitos dialeticamente articulados a partir dos quais se pode iniciar uma reflexão crítica sobre a associação entre consumo e progressos sociais.

Finalmente, em O 'Turista Aprendiz', de Mário de Andrade versus 'El Zorro de Arriba y El Zorro de Abajo, de José Maria Arguedas: uma aproximação literária e sociológica no panorama latino-americano, Cristiano Mello de Oliveira e Pedro Nunes de Castro realizam interpretações comparativas desses dois clássicos da literatura. Os autores iniciam com considerações reflexivas a respeito da obra desses escritores situando comparativamente a biografia de ambos. Posteriormente contextualizam alguns laços históricos no período em que eles estavam inseridos no plano político da América Latina para, na sequência, enfocar o objeto do artigo. Para tanto, selecionam fragmentos em ambas as obras que melhor evidenciar as possíveis aproximações, defendendo que estas obras guardam variados aspectos similares, especificamente nas representações das migrações internas, que podem elucidar a forma e o estilo do fazer literário de ambos os escritores. Além destes oito artigos inéditos submetidos à avaliação de acordo com os procedimentos definidos pela Revista, temos um artigo que expressa um convite e uma homenagem: o Texto inacabado de Rafael Vecchio sobre o Ensino Superior e a Produção de Conhecimento no Brasil e na América Latina. Rafael era Graduado em Administração, Mestre e Doutor em Administração, sempre pela UFRGS. Era professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). A decisão editorial foi publicar o texto exatamente no estágio em que se encontrava, sem as referências ao final do texto e preservando as marcas que Rafael havia feito para si mesmo. Recados si mesmo, para mais tarde, quando o texto fosse retomado. Infelizmente, esse momento não aconteceu. Com esta publicação homenageamos seu valor intelectual e pessoal, manifestamos nossa saudade da gentileza e carinho que distribuía, afirmamos sua presença. Nas sessões complementares temos a Resenha do livro El demonio en la proa, do escritor colombiano Edgar Collazos, realizada por Ricardo Sánchez Ángel; o Ensaio Fotográfico Abya Yala Profunda, registrando caminhos de Ricardo Casarini Muzy por Chiapas e pelo interior da Guatemala; e o Vídeo Encontro Mundial da WAPE – Associação Mundial de Economia Política, apresentado por Elaine Tavares que chama a atenção para a realização da próxima edição de seu Encontro, em 2013, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob organizado do IELA – Instituto de Estudos Latino-Americanos.

Como sempre, sugerimos as leituras aqui apresentadas e, ao mesmo tempo, convidamos para que contribuam, compartilhem e se solidarizem com essa proposta de produção e disseminação de conhecimento sobre a América Latina.

Boa leitura!

Coletivo Editorial 

Ensaios Fotográficos

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