Volume 1, Número 1 (2011)

Editorial

Com esta edição estamos iniciando a trajetória da revista eletrônica REBELA. É com grande satisfação e expectativa que a colocamos à disposição de todos aqueles interessados nos temas da América Latina. A Revista Brasileira de Estudos Latino- Americanos tem como objetivo difundir a produção de intelectuais e ativistas sobre a região. Afirmando a unidade indissociável entre teoria e prática, REBELA está interessada em análises e reflexões que contribuam para compreender o contexto e as particularidades do momento atual, em suas múltiplas dimensões. REBELA é uma revista comprometida com a libertação dos nossos povos e com a construção do socialismo.

Repelimos o transplante de ideias. Queremos contribuir para a construção e consolidação de um pensamento social que se alimenta da tradição marxista, em especial do marxismo latino-americano, sem descartar reinvenções do pensamento humanista. Consideramos que, na interlocução com estas tradições, é indispensável praticar, a partir da nossa situação, a redução sociológica e a reoriginalização cultural, como ensinam Alberto Guerreiro Ramos e Aníbal Quijano, respectivamente. Valorizamos, sobremaneira, a disseminação do saber produzido no cotidiano das lutas. Queremos que REBELA se constitua em um espaço de diálogo de saberes: entre o saber produzido nas lutas sociais e na academia, bem como através da articulação entre áreas de conhecimento como a economia, as ciências sociais e política, os estudos organizacionais, o serviço social, a filosofia e a história.

Neste número este propósito se expressa através de um conjunto de oito artigos científicos inéditos que provêm de diferentes partes da América Latina e de diferentes espaços disciplinares.

Rafael Cuevas Molina retoma a proposta que o nicaraguense Augusto César Sandino (1895-1934) fez aos presidentes da América no espírito bolivariano de união latino-americana. Em Bolívar em Sandino: Uma proposta de união anti-imperialista desde Las Segovias na Nicaragua, o autor evidencia uma linha histórica que provém do século XIX e se prolonga até nossos dias, advogando por distintas formas de colaboração, integração ou união entre os diferentes países latino-americanos. Ainda nesta temática, mas a partir do contexto Argentino, Leandro Morgenfeld revisa a trajetória das diferentes alternativas de unidade ou integração dos países do sul do continente, desde as guerras de independência latino-americanas. Em Argentina e América Latina ante um dilema histórico : unidos ou dominados, alerta para a necessidade de superação dos obstáculos históricos para a unidade latino-americana, de modo que se expresse o posicionamento anti-imperialista que reclamam diversas organizações populares. Marina Corrêa de Almeida discute A cultura legal emergente latino-americana: o pluralismo jurídico rompendo os laços imperialistas no direito. Neste artigo aborda o constitucionalismo latino-americano, altamente influenciado pela cultura legal europeia, para demonstrar como processos de reformulação das Cartas Magnas em alguns países da região têm buscado romper com esta cultura, reconhecendo, entre outros aspectos, a pluralidade étnica, representada pelos povos originários. Ainda no campo do direito, Alejandro Olmos Gaona, em A dívida argentina como delito: um aspecto não tratado pelo direito penal, demonstra seu caráter de delito continuado e imprescritível. Em Chile 2010: de um fechamento a outro nada que celebrar, Maria Emilia Tijoux parte da constatação de que a lógica do capital calou fundo nas estruturas da sociedade chilena e nas subjetividades dos cidadãos. Tomando o ano de 2010, momento da celebração do Bicentenário e também de fatos traumáticos - o terremoto seguido de um tsunami, o enterro de trinta e três mineiros na Região do Atacama e a longa greve de fome protagonizada por presos da comunidade mapuche - a autora compartilha suas reflexões e sentimentos. Em Ideologia e poder popular em El Salvador: a metamorfose da FMLN e as possibilidades de construção de um novo sujeito, Stefano Motta e Dagoberto Gutierrez tomam a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN) como sujeito histórico em El Salvador, analisando como, em um país onde se construiu um dos mais fortes movimentos guerrilheiros e de massas da América Latina, a institucionalização deste instrumento contribuiu para destruir o acúmulo político de vinte anos de construção de poder popular. José C. Valenzuela Feijóo, em Um mundo mais amplo e mais alheio: neoliberalismo e desigualdades regionais, analisa o padrão de acumulação neoliberal no México considerando as formas atuais de produção, apropriação, distribuição e utilização do excedente na América Latina. Finalmente, Fernando Correa Prado apresenta a trajetória intelectual de Vânia Bambirra, cuja obra perpassa, entre outros temas, a formação do capitalismo dependente latino-americano, as características de processos históricos fundamentais como a Revolução Cubana, assim como o pensamento de clássicos do marxismo sobre a transição ao socialismo. O artigo Vânia Bambirra e o marxismo crítico latino-americano tem grande relevância, já que em contraste com o reconhecimento que tem em outros países da América Latina, esta autora brasileira segue pouco estudada no seu próprio país.

Este primeiro número de REBELA apresenta ainda dois trabalhos nos formatos complementares aceitos pela Revista: a resenha de sítio da internet, de autoria de Elaine Tavares, sobre o sítio do CONAIE – Espaço do Movimento Indígena do Equador; o ensaio fotográfico Haiti – Março de 2011, de Maria Ceci Misoczky.

A nova situação latino-americana, com a retomada da iniciativa política das massas, exige da ciência social e dos intelectuais da região uma atitude política. A tradi- cional postura acadêmica, pretensamente neutra em termos científicos, deve ceder pas- sagem ao intelectual organicamente comprometido com seu povo. Da mesma maneira, o programa de investigação não pode se distanciar da busca de um novo sistema social onde o colonialismo, a mercantilização da educação e o eurocentrismo não sejam mais que cicatrizes da história. Essa revista é o espaço onde isso pode se expressar.

Desejamos, por fim, que o ato de ler esse número de REBELA seja um ato po- lítico, de tal modo que o leitor sinta-se instigado a escrever e publicar, ampliando e for- talecendo as lutas dos povos latino-americanos.

 

Coletivo Editorial

 

Maria Ceci Misoczky

Elaine Tavares

Nildo Ouriques

Sueli Goulart

Resenhas

Ensaios Fotográficos

Autores desta edição