História do Projeto Córdoba

Em l989, numa visita  à coordenadora de Ensino de lº e 2º  Graus da Universidade Federal de Santa Catarina, professora Clarmi R. Figueiredo, a professora Querubina Ribas Pereira, do Colégio de Aplicação da UFSC, o professor Victor Hugo de Nicola, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Nacional de Córdoba, e a desembargadora Marta Bravo de Nicola - pertencentes à Comissão de Pais da Escola Superior de Comércio "Manuel Belgrano -  discutiram em que termos poderia ser firmado um Acordo Internacional de Cooperação e troca de experiências entre as duas Universidades e seus respectivos Colégios.  Naquela ocasião foi sugerido que o primeiro passo para que tal projeto se realizasse, partisse da Universidade Nacional de Córdoba.  Em seguida foi realizada uma reunião com a Diretora do Colégio de Aplicação, professora Teresinha de Fátima Pinheiro, que colocou a estrutura administrativa do Colégio de Aplicação à disposição do Acordo.

Em l990, as mesmas pessoas entregaram, em mãos, no Escritório de Assuntos Internacionais desta Universidade, um documento endereçado a professora Clarmi R. Figueiredo e a um grupo de docentes do Colégio de Aplicação, no qual a Universidade de Córdoba estabelecia, preliminarmente, alguns pontos que deveriam ser observados, mutuamente, para que o Acordo se concretizasse. Inicialmente o Acordo foi apreciado pelos Reitores Francisco J. Delich, da Universidade Nacional de Córdoba e Bruno Schlemper Sobrinho, da Universidade Federal de Santa Catarina, e pelos representantes do Escritório de Assuntos Internacionais, a Licenciada Gladys Orsucci, de Córdoba, e o professor Pedro Schlidwein, desta Universidade.

Em l99l, durante a realização do IIº Encontro Nacional de Professores de Geografia, História e Filosofia dos Colégios de Aplicação das Universidades Federais, participaram 5 professoras da Escola Superior de Comércio Manuel Belgrano. Em janeiro de l992 recebemos no Colégio de Aplicação a visita de três monitores e uma estudante.

Em l992 um grupo de professores do Colégio de Aplicação, após uma série de reuniões preparatórias, viajou até a cidade de Córdoba para discutir e formalizar, junto aos professores daquela Escola, princípios norteadores do Acordo de Cooperação. Este ano é duplamente simbólico para o Colégio de Aplicação. Primeiro, porque é nesse momento que firma-se institucionalmente o Acordo de Cooperação entre duas Universidades. Em segundo por que a sualegalidade é enriquecida com o I° Encontro Latino Americano de Adolescentes Simon Bolivar em alusão aos 500 anos da Conquista da América, no período de l2 a 22 de Outubro.

O Acordo de Cooperação foi assinado pelo Reitor Professor Diomário de Queiróz da UFSC e pela professora Julia Guzman representante do Reitor Professor Francisco J. Delich da UNC. A Escuela Superior de Comércio Manuel Belgrano, vinculada a Universidad Nacional de Córdoba, foi fundada em 1938. Trabalha com dois níveis, o Secundário (nove anos: área de Ciências Sociais, Ciências Naturais e Economia e Gestão) e o Terciário (noturno). Possui aproximadamente 2000 estudantes e 400 professores. Funciona em período integral, os estudantes entram as 07h50min e saem as 16h20min.

O Colégio de Aplicação foi criado em 1961, sob a denominação de Ginásio de Aplicação e com o objetivo de servir de campo de estágio destinado à pratica docente dos alunos matriculados nos cursos de Didática (Geral e Específica) da Faculdade Catarinense de Filosofia (FCF). Atualmente está inserido no Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, é uma unidade educacional que atende ao Ensino Fundamental e Médio, funciona em prédio próprio, no Campus Universitário, e está localizado no Bairro da Trindade, município de Florianópolis.

O Colégio de Aplicação segue a política educacional adotada pela Universidade Federal de Santa Catarina que visa atender à trilogia de Ensino, Pesquisa e Extensão. Possui aproximadamente 1000 estudantes e 100 professores. As duas instituições contam com o trabalho dos técnicos-administrativos que atuam nos demais segmentos das escolas.

A província de Córdoba se localiza no centro da Argentina. É a segunda cidade mais importante do país. Possui uma superfície de 165.321 Km2, sendo uma das que possui maior extensão e uma paisagem bastante diversificada, com planícies, salinas, lagunas e serras, sendo que estas percorrem a província de sul a norte. Na província encontramos altitudes que chegam a 1.950 metros (Sierra Chica, departamento de Totoral) e a 2.790 metros (Sierra Grande, departamento de Calamuchita). Em Santa Catarina localizado na linha de divisa entre Urubici e Bom Retiro temos o Morro da Boa Vista com 1827 metros de altitude considerado o ponto mais elevado do estado.

A cidade de Córdoba, considerada Patrimônio Histórico Cultural pela UNESCO, foi fundada em 1573, com uma área de 576 Km2 e Florianópolis fundada em 1748 possui uma área de 675,409 Km2. O censo nacional de 2010 estabeleceu uma população na cidade de Córdoba de 1 329 604 habitantes. Em Florianópolis o censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2010 estabeleceu uma população de 461.524 habitantes.

São destes dois lugares aparentemente distintos que nasce então, o projeto. Repleto de um sentimento muito particular dos povos de lá e dos povos daqui: o resgate de suas identidades e a possibilidade de ao se aproximarem, se reconhecerem como “companheiros”. O Acordo de Cooperação visa ao intercâmbio entre estudantes, servidores docentes e técnico-administrativos para que, através da troca de experiências possam conhecer as respectivas histórias, refletir sobre as mesmas e, por extensão sobre a história latino-americana.

A identificação desses professores com o Acordo de Cooperação está relacionada à filosofia do Colégio de Aplicação e à proposta de educação defendida pela Escola, ou seja, “a formação crítica e consciente dos sujeitos envolvidos no processo educacional: estudantes, pais, servidores docentes e técnico-administrativos”.

O “Projeto Córdoba” tem muito ainda a construir, mas não podemos esquecer o quanto já contribuiu de 1992 para cá. Em termos curriculares provocou a introdução no Colégio da disciplina de Espanhol e, mais recentemente, a de Estudos Latino-Americano (ELA), no ensino fundamental e no médio, que se reveste de pioneirismo, pois foi a primeira escola brasileira seguida neste ano pelo Colégio de Aplicação do Rio Grande do Sul. Este “Projeto” desde 2006 faz parte do IELA - Instituto de Estudos Latino Americanos, com sede na Universidade Federal de Santa Catarina.

A discussão e o pensar latino americano é sempre um desafio. Mesmo agora com um trabalho que entra no ano de 2015 completando 23 anos nos deparamos com questionamentos e dúvidas por parte da instituição e das famílias que já deveriam, no nosso entender, estarem superados ou no mínimo aceitos.

Tomemos o exemplo da disciplina ELA. Desde 2013 está sendo questionada a sua permanência na grade curricular do colégio. Não se questiona propriamente a sua importância mas o discurso por parte dos estudantes e seus pais é: para que se esse “conteúdo” individualizado se já está inserido em História e Geografia? E por parte dos professores: é mais uma sobrecarga nas suas horas de trabalho e consideram que é preciso justificar com mais clareza a sua existência e aprendizagem. Enfim questionamentos que raramente percebemos em relação ao ensino eurocentrista tradicional.  

Firmamos nosso compromisso incentivando e proporcionando discussões sobre nossa Latino América para além do simples intercâmbio. Debates sobre Venezuela, Paraguai, Colômbia, Cuba, a realidade urbana no Brasil e temas como Cordobazo e a Reforma Universitária de 1918, fazem parte da nossa dinâmica de trabalho. Pensar como latino americano é o que nos faz caminhar e seguir a direção política da transformação social.

Nossos objetivos continuam sendo perseguidos. Alguns ainda não conseguimos viabilizar. Como o estreitamento de relações culturais através do intercâmbio entre servidores técnico-administrativos. E a implantação da disciplina de “Português”, no currículo da Escuela Superior de Comercio Manuel Belgrano.

Hoje o Intercâmbio com a EMB é ao mesmo tempo um projeto amadurecido, pois alguns de seus objetivos já deixaram de ser um intento, um esboço preparatório e se transformaram em fato. É algo que tem corpo, sentimento, voz, vai e vêm atravessando fronteiras. Mas em parte continua sendo uma ideia que se forma para realizar algo no futuro. É permanentemente um espaço amplo de criação.

Estar reunido com um grupo de professores de outro país da América Latina é muito gratificante. Pois nas discussões que se estabelecem poder ver no outro o seu próprio cotidiano, perceber as semelhanças e os desafios e então vislumbrar nas falas os mesmos ideais de transformação é quase um deleite. Nas asperezas do cotidiano escolar, em um mundo onde empobrecer a reflexão e desesperançar o educador é regra, estar frente a frente com professores que encerram seus trabalhos dizendo, vamos continuar, é indubitavelmente uma sadia teimosia. E é esta audácia que nos mantém convictos.   

Setenta e sete anos completou a Escuela Superior de Comercio Manuel Belgrano nesse ano. Destes, 23 fazemos parte. Revela a permanência de um projeto em uma Instituição Pública Federal histórica em Córdoba.

De meninas e meninos são mais de 400 durante esses anos atravessando a fronteira. E para além de jovens que vão e vem essa aproximação se torna uma aula intensiva de cultura, uma permanente saída de estudo interdisciplinar.  Se pensarmos que na Escola Manuel Belgrano os estudantes ficam 8 horas por dia, os intercambistas brasileiros em 40 dias vivenciam uma experiência educacional de 320 horas o dobro dos seus colegas no Colégio de Aplicação. Sem considerar a relação que estabelecem nas famílias e na cidade.

E porque frisar esse aspecto tão quantitativo? Para fortalecer a importância educacional, política e pedagógica do Acordo de Cooperação. Para que os professores reflitam que ao terem seus estudantes viajando e ao estarem recebendo os estrangeiros estão  participando de uma relação onde não existe perdas. Na essência desse encontro deveria prevalecer uma experiência humanamente enriquecedora. E para os estudantes, muito mais. São eles os insignes viajantes (nós os insignes ficantes). Mas nem sempre é assim. Nestes 23 anos nos deparamos com professores e estudantes que nem sempre percebem a riqueza em que estão envolvidos. Professores que não aceitam o Projeto Córdoba, entendem, são esclarecidos coletivamente pela coordenação, mas não aceitam. Consideram que o seu aluno ficar dois meses sem ter o seu conteúdo é uma perda irreparável. Compreensão estreita do que é uma escola e do que é educar. E em relação aos intercambistas também podemos salientar que todo ano um em onze não se dá conta da possibilidade que teve. Sua valorização é também estreita, imediatista e individual. Todo o esforço feito pelos professores, pela coordenação, e por suposto pela própria família se transforma em uma vivência unilateral e descompromissada.

E por isso todo ano é o primeiro ano. Na volta do mundo o recomeço. O compromisso. O esclarecimento. As novas possibilidades para fazer sempre melhor,para dar continuidade e ampliar a nossa luta pela integração da Pátria Grande. Esses são os desafios. As utopias que nos fazem caminhar. Aproximar, é nessa direção que caminhamos. Eis porque nosso vínculo com o Instituto de Estudos Latino- Americanos (IELA), que tem como um dos seus objetivos promover encontros científicos, seminários, simpósios, colóquios, congressos e outras atividades no campo dos estudos sobre América Latina. Como as Jornadas Bolivarianas.