Aldevan Baniwa, a vítima da Covid-19 que ensinava pesquisadores a ver

5 de Maio de 2020, por Maria Fernanda Ribeiro


Agente de saúde morreu no dia 18, em Manaus, em luta contra a doença e contra a desigualdade; um dos autores do livro “Brilhos na Floresta”, ele ensinou cientistas estrangeiros a observar cogumelos e fungos na escuridão da mata

O indígena Aldevan Baniwa caminhava pela mata na companhia de um professor japonês que nada entendia da língua portuguesa ou tampouco nutria conhecimento sobre aquele espaço de floresta, nos arredores de Manaus. O cientista do outro lado do mundo estava na companhia do guia certo e sabia que com ele a jornada não seria em vão: o aprendizado viria. A pesquisadora Noemia Kazue Ishikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), era o laço que unia os dois. E a tradutora necessária para que os diálogos fluíssem. Ou ao menos achava que era. Ela, que não estava num bom dia, precisou descansar após a caminhada e dormiu na rede por algumas horas.

Ao despertar, perguntou a si mesma como é que os dois amigos se viravam sem a sua presença e foi quando percebeu que ambos encontraram na língua inglesa uma maneira para se comunicarem e, juntos, preparavam um almoço que unia a alta tecnologia de arroz pré-cozido e esterilizado, uma contribuição do professor Keisuke Tokimoto, e peixe jaraqui na brasa, preparado pelo Aldevan. Uma verdadeira junção de saberes tradicionais e científicos em um almoço só.

Aldevan tinha esse dom, de unir a ciência aos saberes tradicionais onde quer que estivesse, fosse em português, inglês ou nheengatu. Era sempre um encontro de saberes, uma parceria mágica. Mas, no dia 18 de abril, o indígena de 46 anos nascido na comunidade Tapuruquara, em Santa Isabel do Rio Negro, foi mais uma vítima da Covid-19 no país e morreu, mas não sem antes denunciar em suas redes sociais o descaso com os profissionais que atuavam na linha de frente no combate à pandemia em meio ao caos no Amazonas.

ELE PASSOU MAL DUAS SEMANAS SEM SER TESTADO

Ele também era um deles. Funcionário da Fundação Vigilância em Saúde (FVS), o Baniwa — uma etnia com cerca de 15 mil indivíduos na fronteira com Colômbia e Venezuela — divulgou um texto sobre a falta de testes. Ele passava mal havia duas semanas e não conseguiu acesso ao recurso.

Para quem o conhecia, era óbvio que ele não ficaria calado. Aldevan era, acima de tudo, um ser humano combativo, que lutava contra as injustiças e as desigualdades, em defesa do seu povo e da sociedade. “Ele era um crítico do sistema”, diz o irmão André Brazão. Segundo ele, Aldevan era aquele que brigava pelo descaso da categoria e sempre estava à frente das reivindicações. “E deixou um legado de que é possível a gente mudar o mundo”.

O resultado positivo para a Covid-19 saiu no sábado, dia 25 de abril, uma semana após a sua morte. Como morava na cidade, Aldevan não fará parte das estatísticas de óbitos entre indígenas computados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde responsável pelos dados, mas que considera em sua base apenas os que vivem nas comunidades. Até o momento, de acordo com levantamento do De Olho nos Ruralistas, já são 15 óbitos. Para a Sesai, são cinco.

Aldevan foi o terceiro indígena a morrer por coronavírus na cidade. No mesmo dia em que faleceu, outros três agentes de endemia tiveram o mesmo destino. Ele foi enterrado no cemitério Tarumã, em Manaus, quando foram feitos mais 130 sepultamentos, uma média três vezes maior que antes da pandemia.

‘VOCÊ NUNCA VIU ANTES PORQUE NÃO APAGAVA A LANTERNA’

Poucos meses antes de sua morte, nascia o Aldevan escritor, que revelou ao mundo a existência dos cogumelos bioluminescentes e que marcou a entrada dele na literatura, não somente na indígena, mas também na científica. “Brilhos na Floresta” é uma novela gráfica que mostra como se encontram os cogumelos e fungos luminosos na escuridão da mata.

Em uma das passagens mais emblemáticas, narrada pelo o antropólogo José Bessa, ele guia pela noite os pesquisadores ávidos para verem de perto aquilo que o indígena há muito já conhecia. Em determinado momento Aldevan pede que todos apaguem suas lanternas.

E se faz a mágica. Os cogumelos coloridos e luminosos surgem, num espetáculo jamais imaginado de cores e luzes. O biólogo Takehide Ikeda faz a pergunta que transformaria a resposta de Aldevan numa espécie de manual prático para a vida.

— Já andei muito por florestas. Por que será que nunca vi isso antes?

— Porque você nunca apagou a lanterna. Os cientistas deviam saber que nem tudo que a gente procura, pode ser encontrado iluminando. Às vezes, para ver, é preciso desiluminar.

Naquele momento se apresentava a sabedoria milenar de quem nasceu na floresta, filho de um pai Baniwa e mãe Tukano, povo com uma população de cerca de 11 mil pessoas, na mesma região dos Baniwa.

“Ele matou a charada com essa frase, de que é preciso apagar a luz para enxergar certas coisas”, avalia Bessa. “Aldevan apresenta a possibilidade de trazer esse conhecimento indígena em diálogo com a ciência. Ele tinha acabado de nascer como escritor e é como se tivesse morrido logo após o parto”.

“Às vezes, para ver, é preciso desiluminar”

O livro “Brilhos da Floresta” foi escrito em quatro línguas: nheengatu, português, japonês e inglês, e se trata de uma contribuição para o conhecimento da biodiversidade na Amazônia. Aldevan e a ex-mulher Ana Carla Bruno são dois dos autores, junto com os pesquisadores Noemia e Takehide, além da ilustradora Hadna Abreu. A obra foi lançada no fim do ano passado pela Editora Valer, em parceria com a editora Inpa.

A noite de autógrafos aconteceu na tradicional Banca do Largo, em Manaus, do icônico Joaquim Melo, que reúne em um pequeno espaço os livros mais interessantes — e raros — de toda a Amazônia. Aldevan estava feliz. E Joaquim não escondia o orgulho de lançar ali aquela obra. Ele sabe reconhecer grandes autores.

OBSERVADOR, PERSPICAZ, SILENCIOSO, SARCÁSTICO, ASTUTO

Para Noemia, parecia impossível que o homem que cuidava de todos pelas incursões pela floresta pudesse ser abatido. Ele, um agente de endemias experiente, era quem deixava as expedições com jeitão de que tudo daria certo. Antes mesmo de entrar na Fundação Vigilância em Saúde já tinha aprendido a ler lâminas com resultados para malária quando trabalhou de “faz-tudo” com os indígenas Waimiri-Atroari, isso lá pelos idos da década de 90.

Entrou na fundação após passar no concurso para agente de endemias. O trabalho era na rua, no trabalho de combate à dengue. Mas logo perceberam que Aldevan era habilidoso no computador e ele passou, então, a cuidar dos programas de mapeamento. Morreu como agente de combate à malária nas comunidades rurais, quase dez anos depois.

Se tinha medo? “Preocupação é com meus velhinhos”.

Observador e perspicaz. Silencioso, mas sarcástico. Provocativo e astuto. O bravo-manso. Era o jeito “aldevaniano” de ser, como nominou Ana Carla, com quem teve duas filhas. E nesse perfil cai bem lembrar que ele reinava absoluto também quando o assunto era um bom tambaqui na brasa. Ou um jaraqui, é claro.

O Baniwa era um poliglota. Ou quase. O inglês ele aprendeu quando acompanhou Ana Carla aos Estados Unidos. Chegou sem nem saber falar “goodbye” ou “good morning”, mas quando o casal voltou ao Brasil, cinco anos depois, desempregado, com as duas filhas que nasceram lá, ao menos a língua já fazia parte do seu dia-a-dia.

O nheengatu, que um dia foi a língua indígena mais falada no Brasil, é a herança da infância que ele e o irmão André preservaram mesmo após terem se mudado com os pais ainda crianças para Manaus, onde desenvolveram a língua portuguesa. “Espanhol ele também falava um pouco”, conta o irmão.

Ele e Ana Carla estavam separados há quatro anos, mas a ligação com as “meninas” e os sonhos que mantinham para elas, como viagens ao Rio Negro e uma volta aos Estados Unidos, os mantiveram conectados até o último dia de vida. Os amigos e Ana Carla revelavam preocupação com aquela febre que não passava e o mal-estar contínuo.

Aldevan respondia que estava tudo bem. Os mais próximos desconfiam que talvez ele soubesse que a sua vida já era uma dança mortal.

No último fim de semana antes de sua morte ainda colheu muitos cogumelos.

Há quem diga que a morte de Aldevan é uma luz que se apaga. Outros, que é só desligar as lanternas para perceber que ele ainda está lá. Ou aqui. Ou aí.

Reportagem publicada originalmente em "De olho nos ruralistas"