Uma ‘ajuda’ para o abismo

13 de Julho de 2017, por Elaine Santos

Trabalhadores em luta no ABCD
Trabalhadores em luta no ABCD

Este texto foi escrito um pouco no fragor do ato, logo, a análise pode não ser a mais aprofundada e crítica que o momento exige. Entretanto, me dispus a redigir fazendo jus aquilo a qual me proponho, isto é, a reflexão crítica e principalmente a coerência entre o que teorizamos e nossa prática no mundo. 

O movimento da sociedade não é aleatório ou irracional, a direita está viva, ela nunca padeceu e agora desfila com a vitória frente aos trabalhadores. A ditadura permaneceu nos rincões do Brasil, nas periferias, nos resquícios de uma polícia militarizada, que mata pobre, negro, descaradamente e agora em rede nacional, como vimos nos últimos jogos de futebol a violência exacerbada que denota a decadência política na qual vivenciamos. Algo que nos coloca a urgência de uma elaboração combativa que é também uma intelecção libertadora, uma vez que só a partir da compreensão do agravamento das lutas é que conseguimos entender todas as opressões que sofremos.

A reforma trabalhista foi aprovada nesse dia 11 de junho e imediatamente recordei os períodos das grandes greves do ABC, meu lugar de origem. O ABC paulista, das fábricas e das lutas. O ABC do ex-presidente e ex-operário Luís Inácio Lula da Silva (LULA) o qual talvez agora esteja a perguntar onde estará aquela galhardia pela mudança tão visível nas greves de 1980, quando os trabalhadores começavam a levantar a cabeça, quando tal luta do ABC se somou a importância da retirada dos militares do poder. Talvez os lutadores estejam condenados à rotina e a repetição, possivelmente descolados de uma realidade brasileira desoladora que lhes parece, à primeira vista, incompreensível. Para o trabalhador comum, o indígena, o sem terra, qual o significado real do ativismo judiciário brasileiro? Se não é isto o que lhes alimenta.

Fato é que recebi notícias dos meus amigos e familiares ‘abecedinos’ todos se perguntando e me perguntando, acabou? Acabamos? Descobri que o supermercado da região que era o mais conhecido por sua relação com os trabalhadores, a COOP (Cooperativa de Consumo), que na década de 1990 possuía o nome de grande montadora e que atualmente se apresenta como um empreendimento de auto-gestão, passou a vender alimentos com notas promissórias  e, sim, o supermercado está cheio de consumidores, porque as pessoas foram midiaticamente alarmadas que com a aprovação das leis trabalhistas os preços dos alimentos devem subir, sendo assim, compremos logo, ainda que seja com notas promissórias, não queremos passar fome e o supermercado agora nos ajuda a “ir para o abismo”. Afinal, quando precisamos de cada vez mais crédito para comprar aquilo que nos mantém vivo, a comida, é porque nossa espoliação já chega ao limite, quem é que vai pensar em greve com fome? Quem é que vai pagar os créditos dos trabalhadores sem qualquer direito? Ou os futuros desempregados deste país em crise? 

Vale lembrar que os bancos têm ajuda do Estado - balcão de negócios da burguesia - nós, os abecedinos só vemos a frente uma direita ansiosa para retomar seus lucros à custa da nossa pele. E nesta direita se alocam todos os que estão assistindo o arrancar das nossas peles, emudecidos, a nota vale também para os intelectuais, os mesmo que separaram política de economia e que agora não conseguem ter os instrumentos analíticos para responder a sociedade. 

Que ao menos ultrapassemos esta “guerra” contra nós, enterrando este sistema político, também esta maldita herança sindical que não terá forças para enfrentar esta situação e que leve junto o PT, que, como diria Chasin, desde sua nascente se mostra como um cadáver que se ansiou ao futuro, todavia, não construiu nada que sustentasse o futuro ausente.

Elaine Santos é Socióloga, Doutoranda em Sociologia no Centro de Estudos Sociais - Coimbra