A tragédia mexicana tem cara e voz

5 de Outubro de 2017, por Waldir Rampinelli


Dei uma grande volta pela Cidade do México, ainda dolorida e assustada, passando pelos principais edifícios desmoronados. Montanhas de escombros. Soterrados, não apenas os pertences, mas a memória das pessoas. Algumas delas albergadas em frente ao prédio rachado ou caído, parecem querer arrancar com os olhos a história que ficou presa nos entulhos. O terremoto é um fenômeno natural, suas consequências trágicas não.

Os mexicanos, cuja história está fincada nos povos originários que há mais de cinquenta mil anos habitavam nesta sua Mesoamérica, domesticando o milho, plantando o tomate e amando o cacau, enfrentam, agora, dois grandes desafios: a natureza que se levanta e grita e as políticas neoliberais que destroem e matam.

Quanto à natureza é preciso saber conviver com ela, como faziam os antigos povos destas regiões. Jamais buscaram, por exemplo, o “excedente econômico” como mecanismo comercial superavitário, pois sabiam que esta estratégia matava a terra, provocava tempestades e faziam as montanhas vomitarem fogo.

Já as políticas neoliberais, que este país vem pondo em prática há mais de trinta anos, estão aprofundando a dependência, avançando no subdesenvolvimento e consequentemente provocando uma decomposição do tecido social. O resultado imediato é o crescimento, cada vez maior, de um narcoestado. Talvez o terremoto, que despertou uma solidariedade extraordinária entre os jovens para com os soterrados, se transfira para o campo da organização social e se expresse no “váyanse [aos políticos], nosotros nos hacemos cargo porque no les creemos”. Na cultura política, diz Raúl Zibechi, seria o retorno do militante.

Pois bem, foi este militante, que sacudido pelo terremoto de 1985, derrotou o PRI nas eleições de 1988, recorrendo o Partido à fraude para continuar no poder; é este militante, hoje, que sai da sua vida virtual digital, passa a conhecer a sua cidade, busca solução para os seus problemas e pode criar o “Partido do Terremoto” que irá sacudir o país ainda mais e apontar novos caminhos. Perspectivas se abrem. É preciso estimular este jovem a chamar para si a condução da história.

O governo de Enrique Peña Nieto, afundado na corrupção, mergulhado na carência de legitimidade e decidido a entregar a soberania do país aos Estados Unidos, passará por um terremoto muito maior no próximo ano, já que haverá eleições gerais no México. Para tanto, o presidente aposta na expectativa de que os de baixo não se deem conta da força que têm; adota medidas paliativas no atendimento aos danificados, utilizando-se do exército e da marinha; apoia as grandes construtoras que se movimentam para abocanhar lucros com as construções; e continua a manter o Estado cativo de uma burguesia predadora e dilapidadora, que protege os ricos e distribui migalhas para os pobres.

Caberá ao jovem militante que arrancou vida dos escombros apontar um novo caminho para este “México lindo e querido”. Qual? A história dirá.