Terra em transe e o crepúsculo da ilusão desenvolvimentista.

12 de Julho de 2019, por André Queiroz

Cena do filma Terra em Transe
Cena do filma Terra em Transe

Paulo Martins é o arauto agonizante do crepúsculo de uma ilusão. Como se fora o último dos homens, parece estar situado entre o não-mais e o ainda não - espécie de zona cinzenta na que a trama de relações e poderes, discursos e pragmáticas ações de governo não mais convocam ou contemplam a sanha e a gravidade dos acontecimentos. 

Paulo Martins é a expressão inequívoca da fundamental autocrítica face aos projetos políticos encampados por sua fração de classe, a burguesia liberal progressista, que depositara as fichas de seu projeto de alavancagem nacional aos modos de um capitalismo burocrático de Estado. E de repente, o susto e a agonia uma vez a perda da ilusão.

Paulo Martins é aquele que regurgita de suas entranhas o mantra que entorpecera aos companheiros de sua geração, no corte de classe a que ele atende. Paulo é aquele que convoca a este giro profundo sobre si mesmo – sujeito coletivo embargado pelos abalos sísmicos convulsionando o seu tempo histórico. Como se olhasse para frente é clamasse a urgência de uma guinada em direção às demandas de base popular, ao abandono do pacto de classes na trama burguesa. Sem que necessariamente o diga, Paulo Martins deplora o choro copioso e ramerrão dos que insistem em requentar o cadáver insepulto de um projeto nacional firmado sobre a conciliação de classes na que as baquetas do protagonismo estivessem às mãos da burguesia nacional. E Paulo vê o abismo, mas não padece do fetichismo da vertigem.

Paulo Martins exige dos companheiros a viragem de conduta como dever histórico, muito além do desconsolo melancólico típico dos que rechaçam o luto necessário à superação do trauma. Paulo Martins exerce o trabalho imprescindível de rasgar e pisotear os lenços encharcados das viúvas de plantão. A ele cabe a consciência de um tempo cindido.

Mas qual o de que tratamos quando nos referimos a esta vacância de tempo e espaço, a esta zona não palmilhada pela consumação dos fatos que anunciam, por sobre os rastros e resíduos de um tempo morto, que os acordos de ontem não mais abrem as portas cerradas sob o enigma de Césamo. A fábula ilusionista da conciliação perdera o viço e a vigência, e suas personagens principais trafegam ou à condição de autômatos quixotescos, ou ao toma-lá-dá-cá esbaforido e afônico dos que insistem no tráfico das mesmas ilusões. Está-se em Eldorado, país interior, oceânico, em meio à convulsão sísmica que ameaça tomar de arrasto instituições e pactos de coalizão; atores políticos, organizações de classe e setores desorganizados da chamada sociedade civil, assim como governos de turno com seus mandatários descartados uma vez que já não servem ao equilíbrio provisório (e suposto promissor) da paz social firmada pelo contrato que alicerça o Estado democrático de direito burguês. 

Dom Porfírio Diaz, tomado por um ímpeto bonapartista, autoriza o deslocamento de tropas federais na direção da província de Alecrim no intento de exigir a rendição incondicional de Vieira, governador da Província. Viera irá resistir? Irá convocar às massas que sustentam as plataformas e pautas de seu mandato? Glauber Rocha não tardará sequer dez minutos para nos lançar aos olhos da atenção a pronta resposta de sua personagem populista. Vieira – tal como Juan Domingo Perón (em 1955) e João Goulart (em 1964) ou outros de ainda há pouco (em condição bastante mais amesquinhada) evocará os riscos inevitáveis da resistência sob o pretexto do derramamento do sangue (1) . Vieira qualifica de sagrado o sangue das massas para que se possa incorrer nos riscos de uma guerra fratricida entre inocentes. O arremate simbólico de sua rendição prenunciada se fará sob o seguinte enunciado: “Nossa aventura acabou!”. Curiosa a conclusiva.

Nestes primeiros dez minutos do filme de 1967, Terra em transe, a trama histórica por sobre a qual transcorre a peça alegórica de Glauber parece estar resolvida – ainda que Paulo Martins, poeta, jornalista e militante, e um dos principais quadros de sustentação da candidatura de Vieira, se lhe contraponha em altos brados de que é necessário ir até o fim, e que sequer se trata de um jogo de partes nas que às metades em disputa possa ser imputada a condição de inocência. Paulo interpela a Vieira: Quem são os inocentes? Talvez Paulo prefigurasse os sórdidos ‘argumentos do depois’ (2)  da longuíssima noite de chacais em Nuestra América – como quando no caso argentino, em sua protohistória das políticas de reparação à chamada Justiça de Transição, ainda ao governo de Raúl Alfonsín (1984), quando se plasmou os argumentos que, sob o pretexto de condenar o terrorismo do Estado ditatorial (1976-83), o abrandava em demasia, ao mencionar que a desmesura da violência de Estado foi ação reativa à originária e causal violência de organizações político-militares tal como Montoneros e PRT-ERP. O escritor Ernesto Sábato, presidente da CONADEP (3) , cunhará este argumento através da chamada Teoria de los dos demônios (4). 

Paulo Martins se pergunta: Onde os inocentes? – ou será que havia aqueles que estivessem eqüidistantes e indiferentes ao seu tempo histórico e sua inevitável tessitura dos fatos?! Paulo Martins ainda argumentará a Vieira que a resistência será o começo de nossa história para além dos arremedos conciliatórios depositados à sorte de ilusionistas e de pelegos de distintos matizes. Vejamos as palavras gritadas por Paulo: “Não se muda a história com lágrimas. Gente como nós, burgueses, fracos... Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos, não é mais possível este aparato de bandeiras com guerras e Cristo na mesma posição, não é mais possível a ingenuidade da fé, a impotência da fé”. E Paulo irá ser morto pelos agentes da repressão de Eldorado - país interior, oceânico, prestes a ser tomado de assalto por um golpe de Estado. 

Paulo Martins quer resistir. Como evocamos, Paulo é aquele que coloca na agenda urgentíssima da hora a fundamental tarefa da autocrítica: Nós, os que erramos. Nós, os aqueles que depositamos as nossas esperanças na figura redentora de um empolado líder. Nós que nos deixamos levar pela farra distributiva de uma política estratégica de governo que depositara as suas fichas no tripé desenvolvimentista: independência econômica, autonomia política e justiça social, assim como, na torpe equação salvacionista que depositara ao mercado a condição de um deus ex machina - como se as hostes do consumo e o fetiche da inclusão social estivessem a ponto de desmontar a axiomática condição de um sistema calcado na opressão de uma classe minoritária sobre a outra, a de produtores, e destaque-se a exponencial situação agravada destas contradições, em se tratando das nossas latitudes periféricas e dependentes, nas que a acumulação de Capital pela burguesia local (gerente e tributária dos oligopólios internacionais) se fundamenta na super-exploração das relações de trabalho quando, modo geral, o salário recebido por aqueles que trabalham sequer é suficiente para a reposição da força de trabalho na condição histórico-social a que todos estamos sobre-investidos. 

A palavra agônica de Paulo Martins, vozeiro e personagem de Glauber Rocha a este filme de 1967, parece atravessar as invisíveis e refratárias paredes do tempo que, vez ou outra, se reapresenta aos modos da farsa ou da tragédia.

Notas

1 -  Bem sabemos o desdobramento sanguíneo destas rendições. Em Argentina, os números tramitam para além dos 30 mil desaparecidos (apenas quando do período de 76-83. No caso, deveríamos refazer os cálculos voltando o ponteiro do tempo à fatídica data do 55 quando se inaugura a Revolucion fuziladora (expressão cara a Rodolfo Walsh). Em Brasil, os indicativos numéricos parecem recalcar o etnocídio dos povos originários no verdadeiro derrame de sangue a pretexto do projeto de desenvolvimento e integração da Amazônia para evitar a sua entrega aos agentes internacionais. Tomando o testemunho do jornalista Lúcio Flavio Pinto, principal especialista acerca dos chamados grandes projetos amazônicos, nunca houve tanto investimento de capital internacional como quando se deu a partir desta ocupação estratégica alcunhada pelo refrão Integrar para não entregar.

2 -  Entenda-se por ‘depois’ o que se costumou chamar de ‘processo de redemocratização’ por meio do pacto de elites. Claro está que esta condição de classe do pacto foi escamoteada pela ficção que se forjou, qual? O da democracia liberal burguesa como valor universal e horizonte dos possíveis.

3 -  Comissão Nacional Sobre o Desaparecimento de Pessoas na Argentina.

4 -   Vejamos o depoimento de Juan Gelman: “Se há algo que é repugnante na polêmica de culpas e responsabilidade, é o que se fez chamar de Teoria dos dois demônios. Alfonsín apresenta por um lado o demônio do terrorismo de Estado e, por outro, o demônio da subversão. Há muita gente honesta que segue crendo, apesar de tudo, que a culpa da ditadura militar foi das organizações armadas. Essa gente está profundamente equivocada e se esquece, entre outras coisas, o fomento e o papel do próprio partido Radical (de Alfonsín) no golpe de 1976. Se esquece que Isabel Perón apoiou a López Rega e as Três AAA e chamou o Exército para aniquilar às organizações armadas. Se esquece que o Partido Comunista apoiava a Videla para evitar o ‘pinochetismo’. Se esquece que o partido Radical brindou centenas de quadros civis à ditadura militar em todos os níveis, sem falar de Ricardo Balbín, que foi ideólogo do golpe e tratou depois de por freios às denúncias internacionais”. IN: MERO, R. Contraderrota – Montoneros y la revolución perdida. Conversaciones con Juan Gelman (p.171).