Sobre os "privilégios" dos trabalhadores

24 de Novembro de 2017, por Elaine Tavares

Com a reforma velhos trabalharão até morrer
Com a reforma velhos trabalharão até morrer

A propaganda do governo Temer para convencer a população sobre a Reforma da Previdência é uma peça bastante eficaz. O argumento mais visível é o do privilégio. Argumento fácil de impregnar a alma e a mente das gentes ensinadas na mesquinharia e no individualismo. Assim, aquele funcionário público ou executivo de multinacional que trabalha numa sala com ar condicionado poderá dizer: “eu vou trabalhar até os 100 anos”. E certamente ele poderá fazê-lo. Porque em tese tem as condições para tal. Agora imagine o quebrador de pedra, na pedreira. Ou o trabalhador da construção civil. Ou as vendedoras de loja. Ou os garis. Ou o povo que trabalha em restaurantes, postos de gasolina, fábricas. Esses não terão nem as condições físicas, nem as condições materiais. E esses são a maioria.

Atenção: 80% da população trabalhadora brasileira ganha até três salários mínimos. Isso significa algo em torno de 2.000  a 2.400 reais. E são esses, considerados “ricos” por algumas agências de pesquisa, os que mais pagam imposto direto, sendo os responsáveis por até 53% da arrecadação tributária. Desse valor, tirando os impostos, os trabalhadores precisam pagar o aluguel, a saúde, a educação, a comida. É um valor mínimo para manter o corpo em funcionamento, apto para gerar valor ao patrão. Nada mais. 

Esses são os “privilegiados”.

Seguindo a lógica da minoria que é dona dos meios de produção, como as fábricas, os bancos, as terras, o comércio, são essas pessoas que precisam agora ser punidas, por ostentarem o “privilégio” de se aposentar aos 55 anos, se forem mulheres, e 60, se forem homens. Para o governo Temer, os anos de contribuição têm de aumentar e a idade mínima também: 60 para mulheres e 65 para homens. Porque, para o mandatário – que se aposentou aos 51 anos e seguirá recebendo como presidente por toda a vida – os trabalhadores comuns são privilegiados. Gente boa e honesta são os políticos que aprovarão a reforma. Cada um deles aposentado depois de uma legislatura. 
Isso é que é privilégio. Afinal, ninguém deveria ser pago para servir á nação. Mas, nessesaí, ninguém mexe. Privilegiado mesmo é o Zé mané, que começou a cortar cana com cinco anos de idade e fica pensando em se aposentar aos  60. Ora, pois. Não vê que precisa ajudar os ricos a acumular mais riqueza? Que estão pensando? Que vão descansar? Não.

Descanso para trabalhador velho e acabado é privilégio. É o que dizem governo e deputados. 
Quem estuda o modo capitalista de produção sabe muito bem o que é isso. Aos trabalhadores a única coisa que é garantida é a exploração. Afinal, esse é o alimento da burguesia (os ricos, os donos dos negócios). Eles só são ricos porque roubam e exploram o trabalho dessa maioria aí, a dos “privilegiados”.  

Marx conta, no seu livro “O Capital” como começou esse modo de produção capitalista, com a expulsão dos camponeses de suas terras e a “liberdade” de ser um assalariado nas fábricas que começavam a existir nos burgos (cidades). Para os capitalistas da época também era um “privilégio” para os servos, deixarem de ser servos e passarem a ser homens e mulheres livres, podendo vender sua força de trabalho para qualquer patrão. Mas, como sempre acontece nesse sistema, tudo era uma enganação. A “liberdade”, considerada privilégio, não era tão liberdade assim. Afinal, não era uma escolha. Sem terra e sem casa, o homem e a mulher daquele tempo só tinham uma alternativa: ser explorado na fábrica. E quem não conseguia emprego, porque era óbvio que não havia para todos, era preso por vadiagem e transformado em escravo. A lei atuava assim sobre os “privilegiados”.

Marx mostra que as leis sobre o trabalho assalariado na Inglaterra  - berço do capitalismo – já começaram a combater os “privilégios” em 1349. Nesse ano, durante o reinado de Eduardo III foi criada o Estatuto dos Trabalhadores (Statute of Labourers). Ali estava plasmada uma jornada de trabalho exaustiva  e um teto para os salários. Ninguém podia ganhar acima desse teto e o patrão que pagasse mais era punido com prisão. A lei também autoriza os patrões a usarem a coação física para extorquir mais trabalho. E ainda tornava nulos todos os contratos feitos até então por grupos ou guildas. Desde aí até o ano de 1825 era considerado crime qualquer tipo de coalizão de trabalhadores. Só em 1871 que os sindicatos foram reconhecidos.

Vejam então que esse combate dos ricos aos trabalhadores não é coisa de hoje. E qualquer coisa mais do que simplesmente manter-se vivo para trabalhar é chamado de “privilégio”.

Então, vamos pensar. Quem tem garantido algum privilégio hoje no Brasil? Os trabalhadores? Não. Ou são políticos, ou são magistrados. Vejam os juízes que, no Brasil, somam pouco mais de 16 mil pessoas. Eles têm 60 dias de férias, auxílio-moradia de 4,3 mil reais, auxílio-educação, auxílio para despesas médicas e o salário de um ministro do STF, por exemplo, passa dos 30 mil. Eu disse 30, não três. 

Já os deputados e senadores se aposentam se cumprem dois anos de um mandato, recebem uma série de auxílios e também ganham gordos salários. 

Pois é essa gente que vem dizer que os trabalhadores e trabalhadoras – a maioria das gentes desse país – têm privilégios, e que por isso vão trabalhar até mais tarde na vida. 

Quem em sã consciência pode crer nisso?   Quem pode aceitar?

Ah, mas eu conheço um cara que trabalha no estado e ganha milhões. E eu conheço um que não trabalha. E eu conheço uma que isso e aquilo. Certamente é verdade. Um e outro. Um número pífio diante a grande massa. 

E, em nome de um ou outra o governo ilegítimo vai formulando um consenso através da mídia comercial. E a campanha é tão intensa que, em pouco tempo, o trabalhador da loja, da construção civil, do açougue, da fábrica, começa a acreditar que tem mesmo que botar “essa gente” (seus companheiros, iguais) para trabalhar. E nas redes sociais vão reproduzindo a “verdade” sobre os “privilégios” que os trabalhadores têm.

Não se enganem. Se há privilégio nessa jogada, ele não são vivenciados por nós, trabalhadores. A previdência não está quebrada. Não há déficit. Tudo isso é só mais uma maneira dos mais ricos roubarem ainda mais o trabalho dos que só tem a força de trabalho para vender. 

A reforma da previdência do Temer é um golpe. Mais um. Não caia nessa. Leia, se informe e lute. Nós também temos direito de viver. 

Os privilégios que precisam acabar são os da classe dominante. E, para que isso aconteça, só a luta.