Sobre Cuba e a saúde

17 de Março de 2020, por Elaine Tavares

Escola de Medicina forma jovens de todo o mundo gratuitamente
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Quando em 1959 a revolução acabou com anos de ditadura em Cuba, a vida de todos os cubanos e de muitas outras pessoas no mundo começou a mudar. Porque a ilha, outrora um pátio dos Estados Unidos, ao se tornar soberana decidiu trilhar outros caminhos que não o do capitalismo. A proposta que se aprofundou já nos primeiros anos de revolução foi a do socialismo, que é um momento de transição. Quando ainda não se saiu do capitalismo totalmente, mas já se dá alguns passos para o tempo do comum. 

No meio de uma guerra quente entre os Estados Unidos e a então União Soviética, Cuba decidiu que faria seu caminho sozinha, sem aceitar interferências nem de uma ou de outra potência, e ainda que tenha sido parceira da União Soviética jamais deixou que o Kremlin ditasse as regras para o povo cubano. 

Com o passar do tempo os Estados Unidos decidiram que não era possível aceitar um país socialista no meio do “seu” continente e passou então a fustigar a ilha. Primeiro com tentativas de invasão, sem sucesso. Depois com terrorismo interno, sem sucesso também. O jeito então foi baixar uma lei impondo um bloqueio à Cuba, impedindo que outros países negociassem com a ilha, impedindo assim seu desenvolvimento natural. 

Cuba é uma pequena ilha, sem muitas riquezas minerais ou outros recursos que possam transformar-se em “commodities”. Havia pouco espaço para manobras, por isso durante muito tempo precisou depender da União Soviética para suas importações e exportações. Ainda assim, bloqueada e atacada sistematicamente decidiu que a prioridade seria o povo cubano e tratou de avançar na educação, saúde e segurança. Em poucos anos após a revolução já não havia um analfabeto em Cuba e o ensino passou a ser universal em todos os níveis. A partir de algumas metas de estado o país também começou a se dedicar à ciência. Se a ilha estava bloqueada, defender o povo deveria ser fundamental. E a ciência seria o caminho seguro para garantir a saúde e a produção. 

Assim que a ilha seguiu seu caminho. Com a possibilidade de estudo para todos os cubanos, profissões como engenharia, biologia, medicina e outras que antes só eram possíveis para os ricos, puderam se disseminar. Assim, em poucos anos Cuba já era autossuficiente nesses profissionais. Com tanta gente qualificada, foi a hora então de exercer a solidariedade e, em um campo específico, o da medicina, a ilha socialista passou a ser referência mundial. 

Como no mundo capitalista a saúde é uma mercadoria que se vende, em todo o planeta as comunidades empobrecidas sempre estiveram órfãos de profissionais nas áreas médicas. Por isso, quando se fez necessário ajudar populações em sofrimento, Cuba começou a mandar seus médicos e enfermeiros para ações de solidariedade. O exemplo vinha do revolucionário argentino e líder da revolução, Ernesto Che Guevara, que, sendo médico, sempre se comportou como uma espécie de dublê, com a arma na mão e com a maleta de médico sempre preparada. O seu parceiro de luta no Congo, Harry Villegas, o Pombo, lembra bem dessa faceta de Che. Ele conta que quando Che se deparou com a miséria e a doença na África, não hesitou em largar o fuzil e atuar como médico junto à população. 

É a partir desse exemplo seminal que nascem as brigadas médicas cubanas. A primeira delas, com 58 profissionais, foi enviada à Argélia, em 1963, logo depois da independência. Mais tarde, novas brigadas foram enviadas a países que haviam sofrido com desastres naturais como enchentes, furacões e terremotos. O Haiti, por exemplo, sempre devastado por desastres, tem contado com a ajuda de Cuba desde o começo dos anos 1990. 

No presente próximo, como bem levantou o jornalista colombiano Hernando Calvo Ospina, num artigo escrito em 2006, existem exemplos da ação dos cubanos que deveriam ser sempre lembrados como heroicos por aqueles que insistem em demonizar a ilha. 

Um deles é o das brigadas que foram à Venezuela tão logo Hugo Chávez chegou ao governo em 1998. Dispostos a ajudar no programa de saúde bolivariano, mais de 14 mil médicos passaram a atender gratuitamente a população que, por anos a fio, jamais tivera qualquer atenção à saúde. O acordo ente Venezuela e Cuba possibilitou a criação dos centros de saúde na Venezuela e, por outro lado, reforçou o programa de formação de novos médicos em Cuba. 

Outro exemplo é o da posição de Cuba com relação à tragédia dos atingidos pelo furacão Katrina nos Estados Unidos, quando a população do estado de Louisiana ficou completamente devastada diante do descaso de seu próprio governo. O governo de Cuba foi um dos primeiros a atender o chamado de ajuda e ofereceu ao então presidente Bush enviar em menos de 48 horas cerca de 1.600 médicos para Nova Orleans, a cidade mais atingida, além de 36 toneladas de medicamentos. A arrogância e ignorância de Bush, que não aceitou a oferta, fez com que quase duas mil pessoas perecessem por falta de ajuda. 

Ospina lembra ainda da tragédia ocasionada por um terremoto na região de Cachemira, no Paquistão, em outubro de 2005. Poucos dias depois chegaram os primeiros 200 médicos cubanos para atuar nas regiões mais pobres e logo em seguida foram erguidos cerca de 30 hospitais de campanha. Naqueles remotos lugares a população jamais tinha visto um médico. E foi por essa ação de solidariedade que puderam sobreviver e saber que num ponto do mar do Caribe existia uma ilha solidária e socialista. Naquela ação os profissionais cubanos atenderam mais de um milhão de pessoas e realizaram 13 mil cirurgias. Alguns pacientes, com traumas graves, foram levados para Cuba, para melhores cuidados. 

Os surtos de cólera no Haiti ocupado pelas tropas da ONU também foram combatidos com valentia pelos médicos cubanos, os únicos que conseguiram chegar aos cantos mais remotos do país. 

No Brasil igualmente recebemos nossa cota de solidariedade com os médicos que vieram para o programa “Mais Médicos”, indo para lugares que nenhum médico brasileiro se dispunha a ir. 

Conforme levantamento feito pelo jornalista Hernando Calvo Ospina, desde 1963 até 2005 mais de 100 mil médicos haviam prestado serviços em 97 países, especialmente da África e da América Latina. São pelo menos 25 mil deles, cada ano, em dezenas de países e lugares que quase ninguém quer ir. Só para comparar, a organização Médicos Sem Fronteiras mobiliza por ano em torno de três mil profissionais. 

Também é importante registrar que quando o atendimento nos países não é suficiente Cuba traz para a ilha os doentes, como foi o caso da garota vietnamita Kim Phu, queimada com napal pelo exército dos Estados Unidos na guerra contra o Vietnã, ou as 19 mil pessoas que vieram para Cuba para se tratar dos efeitos da radiação nuclear causada pelo acidente de Chernobyl em 1986, sendo que a maioria era criança. 

Ospina aponta também que Cuba desenvolveu importante intervenção educativa sobre o vírus da AIDS em pelo menos oito países da África e seis da América Latina, garantindo atendimento a 200 mil pessoas e a formação de 500 mil trabalhadores de saúde.

Outro trabalho importante dos cubanos é a da Operação Milagre que vem garantindo a operação de milhões de pessoas para retirada de cataratas.  Gente pobre que ficaria cega sem essa ação, apesar de a cirurgia ser simples.

Esse trabalho realizado por Cuba é fruto do investimento massivo feito na Escola Latino-Americana de Medicina, a ELAM, inaugurada em 1998 quando começaram os programas mais robustos de solidariedade. Ali, são formados os médicos cubanos bem como são acolhidos estudantes de toda a América Latina, bem como africanos, árabes e asiáticos cujo único compromisso que precisam firmar é regressar às suas comunidades e cuidar de sua gente. Ninguém paga nada pela formação.  Só para comparar, nos Estados Unidos, onde não existem programas de saúde populares e mais de 50 milhões de pessoas não têm seguro médico, uma pessoa que queria formar-se médica precisa desembolsar cerca de 300 mil dólares. 

No Brasil tivemos nossa cota de ignorância quando os cubanos, que chegaram para o programa Mais Médico, ainda no governo petista, foram hostilizados. Alguns médicos brasileiros chegaram a divulgar que a formação dos cubanos era péssima e que não se deveria permitir que atendessem os brasileiros. A prática, nos cantões do país, mostrou o quanto os cubanos não só eram habilitados como muito mais humanos e empáticos. 

Não faltaram também os que acusavam Cuba de praticar trabalho escravo com seus médicos, visto que eles não ficavam com a totalidade do salários pagos pelo programa. Não conseguiam compreender que esses profissionais abrem mão de parte do salário justamente para poder sustentar a formação de novos médicos e trabalhadores da saúde. Ou seja, é uma política de estado que conta com a aprovação dos cubanos, afinal, eles mesmos se formaram porque outros colegas haviam trilhado esse mesmo caminho. Isso é o que constitui o mundo do comum.  

Esse relato de exemplos de solidareidade construído pelo jornalista colombiano Hernando Ospina, com informações que são públicas, mostra a significativa diferença entre um país que se move pelos princípios socialistas e os que usam as catástrofes para lucrar, como os do campo capitalista. 

Agora mesmo, quando o mundo vive o drama de uma pandemia planetária, Cuba encaminha seus profissionais de saúde para cuidar das gentes, e oferece seus medicamentos, enquanto os Estados Unidos embarcam mais de 30 mil soldados para a Europa. Farão o quê, os soldados?

Quem tem capacidade de entender, que entenda.