Se a Rede Globo não For à Missa, o Cristo Redentor será Jairedirevangélico

19 de Outubro de 2018, por Gilberto Felisberto Vasconcellos


É desagradável prantear o povo por ter mais uma vez embarcado no embuste da corrupção como a causa de nossa desgraça. Não é que a corrupção não deva ser combatida, porém a direita sempre faz uso dela para continuar se corrompendo. 

Isso aconteceu com Getúlio Vargas em 54, com João Goulart em 64, e embora com outro perfil histórico, com Collor e Dilma. Isso poderá acontecer novamente com o voto em Jair Bolsonaro, que tem como diretriz ideológica negar a existência da ditadura de 1964 e afirmar que o movimento que derrubou Jango foi benéfico para o povo e a nação. A novidade é apresentar o golpe de 64 como um acontecimento benfazejo, positivo, que deve ser elogiado na história do Brasil.

Jair Messias Bolsonaro é o aprofundamento liberal reacionário da dependência do país. O que há de específico é que essa retomada da dependência pode ser conquistada pelo voto. Bolsonaro legitima a ilegitimidade da ditadura de 64. 

O golpe de 64 foi esquecido pela onipresença cultural da televisão. A telenovela e os programas de auditório são entreguistas. O golpe de 64 não só deve ser esquecido como devem ser repudiadas as suas vítimas que não merecem apreço e nenhuma consideração humanística. Aplaude-se a derrubada de João Goulart do poder. Eis o desastroso significado histórico da eleição de Jair Bolsonaro. Enganam-se aqueles que acham que haverá oposição da imprensa. 

A Veja está fazendo marola, querendo dinheiro, assim que consegui-lo sossegará o periquito. Daqui a pouco Bolsonaro vai ser condecorado herói nacional, um Caxias, um Tiradentes, convidado para ser colega na Academia Brasileira de Letras de Fernando Henrique Cardoso. 

Os pruridos culturais serão desmanchados rapidamente em função do dinheiro e do poder. Dória, o trumpinho bandeirante, declara-se fervoroso adepto do bolsonarismo. É que no fundo em todo tucano existe um Jair Bolsonaro nadando nas águas do anticomunismo. 

Não abusando da analogia, lembrei-me da escola de Frankfurt que foi buscar em Homero a gênese do nazi-fascismo. Dialética do Iluminismo. Fico eu aqui a matutar qual o ponto de partida que lança luz na façanha do Capitão da reserva. Para mim é o golpe de 64, e o que foi escrito sobre ele de maneira maliciosa, não só na historiografia universitária como também o comentário dos políticos que não o apoiaram, mas que têm afinidades eletivas com ele. 

Não julgar e não ser julgado é impossível na história. O homem público, dizia Luis da Câmara Cascudo, é do público. O senhor Capitão saiu do anonimato da Câmara dos Deputados onde militou durante 28 anos para candidatar-se à Presidência da República. 

Quem são os responsáveis por isso? 

Estou com Pier Paolo Pasolini e não abro: a realidade é mais importante do que a verdade. Onde se encontra o enredo desse personagem que talvez comande e seja comandado pelo imperialismo durante alguns anos nosso país? 

A força sub-cultural que o sustenta é a igreja evangélica. Traço aqui um ligeiro paralelo histórico: Hitler na Alemanha foi muito bem votado entre os protestantes. Nem tanto entre os ricos nem tanto entre os pobres, mas votado na classe média, a pequena burguesia enlouquecida de que falava Trotsky. O fascismo é um meio específico de organizar e mobilizar a pequena burguesia para fazer o jogo do capital financeiro.

As gentes que freqüentam a barulheira evangélica são formadas pela pequena burguesia que cravou o seu voto na “chapa fardada”, como escreveu o jornalista Hélio Fernandes. 

Haverá verdadeira oposição entre evangélicos e católicos? 

Pergunto isso porque os Bispos católicos estão andando em carros de luxo junto com Bolsonaro no Rio de Janeiro. Haverá realmente uma clivagem entre um e outro? Ou teremos uma feijoada católico-evangélica promovida pelo capital midiático? O pêndulo passa pela eleição de Bolsonaro ou o apoio a Haddad. 

A Rede Globo vai resignar-se com o triunfo Bolsonaro da Record? 

Há quem diga que o Papa argentino foi escolhido para conter a expansão de Edir Macedo na América Latina. 

Eu não vi até agora o Vaticano movimentar-se para enviar o Papa para Copacabana a fim de derruir Bolsonaro com a missa rezada pela Rede Globo. Com isso estaria consubstanciado de fato o antagonismo entre a teologia católica do povo e a teologia protestante da prosperidade, que é o alicerce do empreendedorismo de Bolsonaro e Dória assoprado por Steve Bannon, o efêmero Rasputin videofinanceiro de Donald Trump.