A relação entre o superávit primário e a cloroquina

14 de Agosto de 2020, por Carlos Walter Porto-Gonçalves


Chega a ser surpreendente a campanha contra as Fake News feita por uma imprensa que fez o que fez para promover a ruptura política iniciada com o não reconhecimento dos resultados eleitorais de 2014. Ou não se lembram mais que Aécio Neves pediu recontagem de votos, já desestabilizando politicamente o país, no dia seguinte dos resultados às eleições presidenciais que deu vitória para mais um mandato do PT?

Essa tática de não reconhecer os resultados eleitorais vem sendo brandida amplamente como uma nova estratégia política para desfazer o que ainda resta de algum sinal de democracia nos tempos que correm. Recordemos que o então candidato Jair Bolsonaro levantara essa hipótese durante o pleito de 2018, o atual Presidente-candidato Donald Trump já antecipou suas dúvidas sobre os resultados das próximas eleições e que Evo Morales foi afastado do cargo por suspeitas de fraude nas eleições, o que não se confirmara nas aferições que se seguiram à sua queda. Na Venezuela esse mantra foi repetido ad nauseam diante das múltiplas vitórias das forças políticas bolivarianas nos muitos plebiscitos, referendos revocatórios e eleições parlamentares e executivas que o país experimentou desde que uma nova constituição foi aprovada, inclusive com referendo popular, no ano 2000. Em uma dessas eleições parlamentares na Venezuela, 72 horas antes do pleito todos os candidatos da oposição renunciaram acusando de possível fraude, embora houvesse supervisão internacional sob responsabilidade, inclusive do ex-Presidente dos EEUU Jimmy Carter. Com a vitória acachapante dos bolivarianos, facilitada pela renúncia coletiva, o parlamento eleito foi acusado de ser parte de uma ditadura pela presença absoluta de parlamentares situacionistas [1] .

Que a democracia no sentido pleno, como a definira Thomas Jefferson como “governo do povo, pelo povo e para o povo” vem sendo debilitada não há a menor dúvida, sobretudo por não ser uma democracia substantiva em que ao aspecto da “livre escolha” se siga uma democracia também nos planos econômico e social. Cada vez mais reduzida a procedimentos eleitorais, até mesmo esse aspecto está sendo dilapidado. E uma das principais razões desse descrédito no “governo do povo, pelo povo e para o povo” se deve à imprensa ligada às grandes empresas que mais bradam pelo direito à livre expressão quanto mais a negam. Elas que fazem todo dia política com seus noticiários onde, como dizia o sambista Haroldo Barbosa, “a dor da gente não sai no jornal”, e reivindicam o primado da verdade e reduzem a política a seus procedimentos, como se a democracia fosse uma pesquisa de opinião.

Quem assistiu durante os 13 anos de governos do PT algum economista, no mínimo keynesiano, para não falar de qualquer economista mais crítico, em algum programa ou noticiário na Rede Globo? Como se não fosse político o fato dos intervalos comerciais dos seus noticiários serem todos patrocinados pelo capital financeiro (Itaú, Santander, Bradesco, Banco do Brasil, etc..) e seu parceiro das oligarquias latifundiárias com seus latifúndios monocultores de exportação (Seara, Sadia, Perdigão), autodenominado agronegócio.  E isso apesar dos governos do PT terem tido como Ministros homens e mulheres ligados a esse setor, como Henrique Meireles (Banco de Boston), Roberto Rodrigues (ABAG), Katia Abreu (CNA), Luiz Fernando Furlan (SADIA), Joaquim Levy (Bradesco) entre outros.

Essa mesma imprensa, por exemplo, jamais admitiu a hipótese de informar sequer aos expectadores a opção de saber que a Petrobrás é uma empresa pública e que, no mínimo, seria aceitável que administrasse seus preços como parte de uma política de interesse social, por exemplo, para conter a inflação mantendo baixos os preços dos combustíveis. E, mais, informando que o preço de produção médio de um barril de petróleo não passa de U$15 e qualquer preço acima disso é lucro, o que não deixou de existir mesmo quando os preços do petróleo despencaram após a crise de 2008 e a estratégia estadunidense de praticar o fracking e garantir sua soberania energética e manter a pressão sobre ser maior fornecedor de petróleo, a Venezuela. Portanto, a Petrobrás jamais deixou de honrar os investimentos de seus eventuais acionistas, mesmo quando esteve cumprindo a sua função de empresa pública e que só chegara ao reconhecimento de sua eficiência pelos grandes investimentos feitos com dinheiro público, portanto, do povo brasileiro.

Não vai aqui nenhum ataque ao direito de opinião de quem quer que seja, como aliás, pela esquerda, sempre defendera Rosa Luxemburgo. Não dá para continuar aceitando a crítica às fake news de uma imprensa porta voz do capital financeiro e que agora se vê criticada por um populismo de direita. Afinal, que crédito dar a essa mesma imprensa que difundiu a falsa informação de que Sadam Hussein dispunha e usara armas químicas, o que viria dar legitimidade à intervenção no Iraque para derrubar um ditador, seja lá o que isso signifique na caracterização dessa imprensa, levando o inferno àquele país que agora tem um ditador em cada quarteirão.

Aliás, os conceitos manejados por essa imprensa são verdadeiras falácias como acusar de populista qualquer proposta de governo popular sem, no mínimo, admitir que haveria distinção entre as duas coisas. Imagine qualquer político dando uma casa a cada sábado num programa televisivo, como faz o Sr. Luciano Hulk que, em nenhum momento, é caracterizado como populista, apesar de andar se insinuando na política formal. Aliás, se o que chamam de publicidade não fosse o populismo amplamente usado pelo mercado, sempre oferecendo o que o povo quer. Não confundamos liberdade de imprensa com a liberdade de empresas mediando a informação. Aliás, a informação, como bem comum, deveria ser interditada ao mercado, admitamos pelo menos a ideia para debate. Os sinais estão claros com o espaço público sendo controlado pelas grandes corporações das plataformas (Facebook e quetais) que têm um controle sobre nossas vidas de fazer inveja ao imaginado no 1984 de George Orwell.

Essa mesma imprensa que se diz anti-Bolsonaro, agora se viu preocupada com o aumento dos gastos públicos com o “furo do teto”, essa mesma imprensa que critica o governo por privilegiar a economia em vez de combater a pandemia. Não é isso que se vem fazendo desde que o Plano Real colocara o país refém de uma taxa de juros escorchante com o estado tendo que garantir o pagamento dos bancos antes da vida. Não seria o superávit primário a cloroquina que nos mata?

Nesse sentido o necrogoverno de Jair Bolsonaro tem a coerência que essa imprensa não tem: defende o capital, com seu Ministro “Posto Ypiranga”, tal como nega a pandemia. Ambos matam. E foi Jair Bolsonaro que expôs a Rede Globo ao maior vexame que a empresa já experimentou ao lembrar à empresa que não criticasse a ditadura já que a empresa a apoiara, em uma entrevista coordenada por Miriam Leitão. E o arrependimento da empresa, 50 anos depois, em pronunciamento público não a absolve do crime que ajudou a cometer, aliás servindo ao mesmo senhor a que hoje serve o Sr. Jair Bolsonaro: o imperialismo estadunidense. Manter altos níveis de popularidade, como os da Rede Globo, não lhes dá nenhuma autoridade democrática pois a democracia não é mensurável pelo IBOPE. Pode ser obtida, por exemplo, com programas de qualidade duvidosa como os que entregam casas aos pobres todo sábado.

Por fim, é vergonhoso assistirmos comentaristas criticando o governo por ter vazado a informação que estava em debate aumentar e furar o teto de gasto, dizendo ser uma medida populista e, como tal, uma medida mais fácil, quando, na verdade, o mais difícil é justamente usar o dinheiro público para fins públicos contrariando os interesses do rentismo que vive do superávit primário, enfim, vive do dinheiro público que falta à educação, à saúde, à segurança, ao meio ambiente, à reforma agrária, para garantir os direitos constitucionais dos povos indígenas e quilombolas.

É esse brado bandido “a bolsa ou a vida” que vem, sucessivamente, mantendo a hegemonia do capital financeiro que nos deu a Carta aos Brasileiros (Lula da Silva), o Teto de Gastos (Michel Temer) e nos dá o Posto Ypiranga (Jair Bolsonaro). Enfim, entre o governo e a Rede Globo, dou um pelo outro e não quero o troco, como diz o dito popular. É de outra política que carecemos onde a vida esteja acima do dinheiro.

Nota

1 - Não vai aqui nessas referências à Venezuela nenhuma identificação com o atual governo do país. No entanto, há, no Brasil, muita desinformação sobre o que se passa naquele país, além de uma polarização ideológica, aliás geral, e que não escapa ao que se passa na Venezuela, em particular, por sua histórica posição anti-estadunidense que vem desde a época da Doutrina Monroe e de Simon Bolívar. A Venezuela está longe de uma polarização entre Juan Guaidó e Nicolás Maduro, leitura que empobrece a compreensão de um dos mais ricos processos de construir uma democracia que vá além da representativa. A Venezuela é um dos países que mais avançou nessa direção com a regulamentação de várias iniciativas de participação e controle popular. Intelectuais respeitáveis como a saudosa geógrafa inglesa Doreen Massey muito contribuiu na construção do que se chamou uma nova geometria do poder ou Poder Comunal. Outros, como Edgardo Lander, junto com o Movimento da Plataforma Cidadã, vêm insistindo para que se busque uma solução democrática para além de Maduro e Guaidó e o piso mínimo que admitem para essa construção é a defesa da Constituição Bolivariana que contém avanços democráticos que são inspiração para todos aqueles que pensam a democracia tal como Thomas Jefferson, ou seja, como “governo do povo, pelo povo, para o povo”.

 

Carlos Walter é professor Titular do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Prêmio Chico Medes em Ciência e Tecnologia outorgado pelo Ministério do Meio Ambiente e Prêmio Casa de las Américas em Literatura Brasileira (ensaio) outorgado por Casa de las Américas, de Cuba, por seu livro A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização (Civilização Brasileira 2008).