Ralé Jessé de Souza & Rapina Nildo Ouriques

7 de Novembro de 2019, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

"A luta de classes está na estrutura do soneto"
"A luta de classes está na estrutura do soneto"

O que caracteriza a loucura da sociedade brasileira é a coexistência de capital estrangeiro com massa marginalizada classificando-se abaixo do proletariado. 

O brizolismo revolucionário, antes e depois de 1964, foi uma resposta à população oprimida e despossuída. Por isso a TV Globo estigmatizou Leonel Brizola de traficante de drogas. 

A ditadura de 64 pró-capital estrangeiro aumentou os sobrantes marginalizados. A igreja (católica e pentecostal) colocou a culpa da pobreza em motivos psicológicos ou na conduta errada. A pobreza foi encarada como um acidente. O pobre acha que é da vontade divina que decorre sua miséria.

Outra loucura da nossa sociedade é a existência de uma massa marginalizada sem comando de uma vanguarda política. Não há partido nem liderança revolucionários.

A classe dominante viu no brizolismo o fantasma de um subproletariado deserdado e potencialmente anti-ordem. Leonel Brizola e Darcy Ribeiro pensaram o tempo todo na capacidade e nos limites da insurgência das camadas oprimidas. 

Para o relativismo pós-moderno, a luta de classe não é senão um produto da imaginação marxista doentia. Nas ciências sociais gradativamente vai desaparecendo a palavra “capitalismo”, substituída por “economia de mercado” ou economia competitiva. 

O badaladíssimo sociólogo criptopotiguar Jessé de Souza recolocou em cena a classe social, mas sem aprofundar o domínio classista e gerador da pobreza. A “ralé” é a mistura pobretária com o subproletariado, escória, marginal, arraia-miúda, desclassado, refugo, massa excedentária, lumpem-proletariado, classe perigosa. 

Camada oprimida abaixo do proletariado, o subproletário não consegue emprego estável, é um desempregado, um subempregado com emprego precário e provisório.

Atenção: o critério da renda não define o que é a classe social. Essa é a visão burguesa, empiricista, economicista. Jessé de Souza como bom devoto do PT eclesiástico, socialismo de religião mais do que da luta de classes, desconhece o conceito marxista de classe social. Segundo Jessé, o marxismo tem visão reducionista da classe social pela posição que esta ocupa no processo econômico de produção. 

Rosa Luxemburg dizia que a teoria marxista não é senão o reflexo da luta de classe engendrado pelo capitalismo. Não existe capitalismo de classe média e de nova classe média. O conceito marxista de classe é econômico, social, político, psicológico e cultural. A sociedade em classe atravessa todos esses níveis, no entanto afirma Jessé que o marxismo não apreende os “valores imateriais” na reprodução das classes, “a antiga visão marxista da luta de classes” está confinada à “imagem da esfera pública e da revolução política”. Com isso o marxismo deixa “de ver a luta de classes, cotidiana, mas invisível e menos barulhenta, mas não menos insidiosa”. 

Afinal, caro colega, onde é que não há ruído na sociedade de classes? A mercadoria é barulho só. A divisão social do trabalho não deixa de ser acústica. Sobre os “valores imateriais” realça-se que a esfera imaterial é tão importante para o marxismo quanto a exploração capitalista material. A rigor não se pode separar, a não ser com abordagem fenomenológica e positivista, classe social de consciência de classe. Sem burguesia não há proletariado, e vice-versa.

Em A Sagrada Família Engels esclareceu que o operário não descobre por si a verdade revolucionária, o intelectual (o partido) é quem revela ao operário sua missão revolucionária. Segundo Ludovico Silva, a mais-valia ideológica é que torna possível a extração da mais-valia material. O exemplo eloquente de mais-valia ideológica é a televisão. Ludovico corrige Theodor Adorno: não é indústria cultural, é indústria ideológica, indústria da consciência, ideologia na acepção marxista, algo que encobre, falseia, justifica os interesses materiais e de classe, como é o caso da “pesquisa de opinião” ou do best seller em sociologia.

A palavra “teoria” significa ver nítido, ver com clareza, ver com ouvido desentupido. A ideologia ensombreia e oculta as relações sociais. Por exemplo: eu não posso estudar as “classes perigosas” na sociedade brasileira e não relacioná-las com o sistema capitalista mundial. É o que Joaçaba ensinou a Nildo Ouriques: a rapina é imanente ao conceito de dependência de Ruy Mauro Marine. 

A rapina é a causa do mal estar, do pauperismo, da boçalidade, a rapina é o todo. As ciências sociais estão tele dirigidas pelo capital. Atenção ó Boa Ventura dos Santos, luta de classes existe não apenas quando acontece uma greve, uma guerra, uma revolução. A luta de classe está até na estrutura do soneto, dizia o poeta no filme Terra em Transe.

Ludovico Silva, citado amiúde por Hugo Chávez, é autor de O Estilo Literário de Marx, que é tão importante quanto História e Consciência de Classe de Georgy Lukàcs, livro que não foi e não é lido pelos sociólogos alpinistas da estratificação social que escondem o imperialismo debaixo do currículo Lattes.