Protestos e greve no Haiti

11 de Julho de 2018, por Elaine Tavares

Foto: Hoy Digital
Foto: Hoy Digital

Trabalhadores haitianos realizaram durante dois dias (9 e 10) uma greve geral que parou por completo a capital Porto Príncipe. Os motivos da movimentação massiva são as medidas de austeridade apresentadas pelo presidente Jovenel Moïse, que decidiu seguir as ordens do FMI. Na última sexta-feira, o anúncio do aumento do preço dos combustíveis foi a gota d’água para que os trabalhadores decidissem parar. 

Durante o final de semana já começaram violentos protestos e no sábado a noite o governo recuou, retirando a medida do aumento dos combustíveis, com o presidente inclusive fazendo um pedido de desculpas. Mas nem isso barrou a movimentação dos trabalhadores que mantiveram a greve.
Os dias de greve foram dias de muitos conflitos na capital e os trabalhadores mudaram a pauta para “Fora Jovenel”, exigindo a renúncia do presidente e responsabilizando-o por toda a violência vivida no final de semana, quando aconteceram saques e foram registradas três mortes. 

No sítio da Agência de Notícias do Haiti há informações de que membros do governo estavam distribuindo dinheiro para os trabalhadores tentando impedir as manifestações de segunda e terça-feira, e que os líderes da oposição estavam orientando pegar os recursos, já que são públicos, mas não deixar de ir aos protestos.

Durante os dias de greve as embaixadas que funcionam na capital permaneceram fechadas e a televisão atuou no sentido de tentar manter as pessoas em casa, bem como as companhias aéreas cancelaram os voos. 

Durante os protestos dezenas de lojas foram saqueadas  e outras vandalizadas e até agora sabe-se que pelo menos cinco pessoas morreram. Os setores de esquerda acusam o  presidente Jovenel Moïses de ser diretamente responsável pela violência já que tem se recusado a ouvir o clamor da maioria da população, que já está no limite. 

Além das medidas de ajuste que vêm sendo tomadas, o governo autorizou há pouco tempo a destruição de duas dúzias de casas construídas em terrenos do Estado próximos a residência presidencial, fato que causou profunda indignação em toda a população e reverberou nos dias de protesto. Afinal, se as terras são públicas, nada mais justo do que garantir a moradia às famílias. 

O governo insiste que o país está quebrado e assinou acordo com o FMI devendo receber cerca de 220 milhões de dólares. O Fundo resolveu emprestar o dinheiro porque o presidente decidiu eliminar os subsídios aos preços dos combustíveis e aumentar o preço da tarifa da luz. O governo também apresentou um plano que inclui uma série de aumento de impostos e sobretaxas no tabaco e no álcool.

Agora, com o recuo do governo, ainda não se sabe se o empréstimo será efetivado. 

O Haiti é um país que vem pagando muito caro o preço de sua heróica história. Foi o único país no mundo onde os escravos fizeram uma revolução e venceram. Desde que essa derrota foi imposta à França o processo de destruição vem sendo feito, como uma interminável punição. Nos últimos 14 anos o país tem vivido sob invasão, controlado pelas forças de “paz” da ONU e ainda sofreu um terremoto de catastróficas proporções. Por conta de todas essas tragédias o país tem recebido milhões de dólares em recursos, mas ao que parece esse dinheiro não chega na população. A corrupção dos agentes dos governos e a rapinagem das ONGs desviam as doações e a população permanece na miséria. 

Mas, como os haitianos são um povo guerreiro, que honra sua história, a luta segue, mesmo que nas piores condições.   

protestos violentos e ação dura da polícia - Foto: AP
protestos violentos e ação dura da polícia - Foto: AP