Privatizar as guerras

10 de Agosto de 2017, por Elaine Tavares

Blackwater - ataque a civis na Praça Nisoor
Blackwater - ataque a civis na Praça Nisoor

Os estados centrais,  que sustentam o sistema capitalista num estado de permanente exploração da maioria, seguem pródigos em invenções vantajosas para eles mesmos, mas que significam mais miséria e sofrimento no mundo. A última agora veio de um conhecido criminoso de guerra, ex-oficial da marinha estadunidense, Erik Prince, fundador da empresa mercenária privada Blackwater, responsável por vários massacres no Iraque. Pois agora ele quer privatizar a guerra no Afeganistão, invadido pelos EUA depois do 11 de setembro de 2001.

A invasão tinha como objetivo capturar Osama Bin Laden, tido como responsável pelo ataque aos EUA e também levar a “democracia” ao país que era comandado pelo grupo fundamentalista Talibã. O fato é que nem Osaba foi capturado, nem a democracia chegou ao país. Pelo contrário. A guerra segue até hoje e a população vive o permanente terror da ocupação do país por forças estrangeiras, que nada sabem dos costumes e das tradições. Na verdade, o Afeganistão, assim como o Iraque, embora ocupados pelos EUA, são praticamente uma derrota militar. Por outro lado, a guerra permanente é uma fonte de riqueza inesgotável para sujeitos como Erik Prince, que ganham muito dinheiro com os conflitos. 

A proposta que ele fez ao presidente Donald Trump nessa semana se enquadra nesse trágico – para o povo afegão – processo de enriquecimento pessoal. Pois a ideia do ex-SEAL e ex-SWAT – uma espécie de super soldado – é de que o governo envie 5.500 soldados mercenários privados ao Afeganistão para assessorar o exército daquele país no que eles chama de “combate ao terror”. Também propôs incluir no “pacote” uma força aérea privada de 90 aviões para que possam ser feitos os bombardeios contra o que eles chamam de “insurgentes do talibã”. 

Prince contra-ataca justamente no momento em que um tribunal de apelação dos EUA acaba de anular a condenação que havia sido feita a alguns de seus mercenários envolvidos no massacre da Praça Nisoor, no centro de Bagdá, em 2007, quando os soldados da Blackwater metralharam dezenas de civis, provocando 17 mortes. Com a decisão da justiça, de inocentar os criminosos de guerra, Prince entendeu que o caminho seguia aberto para novas investidas mercenárias, visto que a guerra segue sendo um grande negócio. A empresa Blackwater foi fechada, mas toda a estrutura segue igual numa nova empresa, a Academi, com a qual o ex SEAL pretende retomar a matança, muito bem pago pelo governo dos Estados Unidos. 

O presidente Donald Trump ainda não se manifestou sobre a ideia, mas é bem provável que ela seja implementada, até porque o uso de mercenários nas chamadas “guerras” promovidas pelos Estados Unidos é uma constante. E empresas como a Blackwater existem às centenas, uma vez que boa parte das forças de segurança estadunidenses já são praticamente privadas, sejam as militares como as de inteligência e comunicação. A guerra é um “big bussines”, puro negócio, talvez o mais lucrativo do país.

Isso, é claro, não é de hoje, desde sempre existe a figura do mercenário. Já foi lendária e considerada heroica a “Legião Estrangeira” francesa, por exemplo, criada em 1831, recrutando criminosos, fugitivos e imigrantes indesejados, e depois profissionalizando-se, formando soldados para lutar nas guerras alheias. Há registros de ação da Legião inclusive no México, durante o curto reinado de Maximiliano.  

A diferença entre os mercenários do passado e os de hoje é que os de antes eram recrutados para ações esporádicas dentro dos conflitos, e agora quem domina as guerras são justamente as empresas de segurança, nas quais os mercenários são meros funcionários, com carteira assinada para matar. Essas empresas são consideradas a “evolução” dos atores privados nas guerras.  Elas passaram a tomar conta do cenário a partir dos anos de 1990, a partir da Guerra do Golfo, a qual tinha um soldado privado para cada cinco militares. 

As empresas de segurança são, na verdade, os terroristas legalizados e, como qualquer transnacional, atuam em todo o globo. A Blackwater, por exemplo, no seu auge, tinha contratos com os EUA, com a Jordânia, Canadá e Holanda. 

Como a política de Trump é a de reacender o terror, são tempos sombrios os que vem pela frente. E, com a política do terrorismo mercenário, cada vez mais as populações estarão desprotegidas frente a esse tipo de “trabalhador”, que, no mais das vezes tudo o que sabe é apertar o gatilho, como descreve o escritor Jeremy Scahill, no relato que faz sobre o massacre de Bagdá, do qual os funcionários de Prince foram inocentados:

O comboio fortemente armado da Blackwater entrou no congestionado cruzamento do distrito de Mansour, na capital iraquiana. A ameaçadora caravana consistia em quatro grandes veículos blindados modelo “Mamba” de fabricação sul-africana, com metralhadoras de calibre 7.62 montadas na parte superior. Para a polícia iraquiana, já se tornara parte corriqueira do seu dia de trabalho interromper o tráfego para abrir caminho para a passagem dos VIPs americanos, protegidos por soldados particulares fortemente armados. 

Ali Khalaf Salman, um policial de trânsito iraquiano de serviço na praça Nisour naquele dia, recorda-se vivamente do momento em que o comboio da Blackwater entrou no cruzamento, obrigando a ele e os colegas a prontamente interromper o tráfego. Mas quando os Mambas entraram na praça, o comboio subitamente deu meia-volta numa manobra-surpresa e prosseguiu na contramão numa rua de mão única. Enquanto Khalaf observava, o comboio parou abruptamente. Ele diz que um enorme homem caucasiano de bigode, posicionado acima do terceiro veículo do comboio da Blackwater, começou a disparar sua arma “a esmo”. 

O policial Khalaf lembra-se de olhar para os atiradores da Blackwater: “Ergui o braço esquerdo bem alto no ar para tentar sinalizar ao comboio que parasse de disparar”. Ele diz que pensou que os homens fossem cessar o fogo, já que ele era um policial claramente identificado. “Não atirem”, por favor!”, Khalaf lembra-se de ter gritado. Mas enquanto ele estava lá de mãos erguidas, Khalaf diz, um atirador do quarto veículo da Blackwater abriu fogo contra a mãe que abraçava o filho e matou-a diante dos olhos de Khalaf e Thiab. “Vi partes da cabeça da mulher voando diante de mim, estouradas”, disse Thiab. “Eles imediatamente abriram fogo pesado contra nós”.

Esse é o destino dos que são considerados inimigos pelos Estados Unidos. 

 

Com informações do Democracy Now