Política para mulheres no caminho conservador

10 de Agosto de 2018, por Elaine Tavares

Filha de Valdir Colatto nas políticas par amulheres
Filha de Valdir Colatto nas políticas par amulheres

A luta das mulheres por suas pautas particulares é uma realidade mundial. A realidade concreta mostra, cotidianamente, que as mulheres ainda precisam travar muitas lutas para garantir direitos elementares, que são singulares ao gênero. Em alguns países elas ainda são como escravas ou propriedades de maridos, pais e irmãos. E mesmo nos países ditos “desenvolvidos” ou ocidentais, as mulheres ainda ganham menos, são agredidas, assassinadas e inviabilizadas pelo simples fato de serem mulheres.

Mas, apesar de tudo isso, as lutas particulares do gênero não podem prescindir do elemento classe. Uma mulher da classe dominante sempre estará em outra condição que uma trabalhadora, por exemplo. E, em alguns aspectos, a solidariedade é impossível.

Há pouco tempo o governo de Temer nomeou Andreza Collato, filiada ao MDB de Xanxerê, para comandar a Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres no Ministério de Direitos Humanos. Andreza é filha do deputado federal por Santa Catarina, Valdir Collato, uma das figuras mais agressivas no que diz respeito aos direitos humanos, principalmente no caso dos indígenas e trabalhadores rurais sem-terra. Ele é o cara que quer acabar com as culturas originárias, impedindo as demarcações de terras e querendo que os indígenas se transformem em trabalhadores assalariados a mando do capital. Ele é quem se comporta como o cão de guarda dos latifundiários, apresentando leis que destroem o meio ambiente e garantem a especulação cada vez maior da terra, inclusive tentando acabar com as leis de proteção ambiental.

É certo que o fato de ser filha de uma pessoa como Valdir não deveria ser motivo para condenar alguém. Por vezes, os filhos seguem caminhos diferentes dos pais. Mas, ao que parece, no caso de Andreza não é assim. Até porque, se não fosse conservadora e representante da classe dominante, não estaria num governo como o de Temer.

A primeira fonte checada para conhecer o perfil da nova secretária foi o seu facebook, que é um espaço público. Praticamente a maioria das postagens diz respeito aos direitos e lutas das mulheres. Eventos na ONU, conferências de mulheres, discussão de aleitamento materno, viradas femininas, debates sobre violência contra a mulher. É, efetivamente, uma página que divulga temas majoritariamente femininos. Ali estão todas as pautas de gênero que podemos acompanhar em qualquer outro perfil de mulheres engajadas nas lutas particulares femininas.

Já sua página do Twitter, congelada no ano de 2013, mostra claramente o perfil conservador da advogada que agora dirige a Secretaria nacional de Política para Mulheres. Grande parte das postagens são reproduções das postagens do pai, Valdir Collato, com toda a carga de preconceito que ele divulga contra indígenas e trabalhadores. Outras postagens da própria advogada deixam claro que está posicionada ao lado da classe dominante. Seus comentários sobre as jornadas de junho estão ajustadas às ideias conservadoras de seu pai.

Ela já foi Diretora de Monitoramento e Coordenadora-Geral de Monitoramento e Acesso a Serviços no Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), com participação no Comitê de Gênero da pasta, sempre dando ênfase aos projetos de empreendedorismo, na lógica de que é possível à mulher “empreender” na selva de pedra do capital. Também teve participação no Fórum Mulheres do Agro, o que mostra sua ligação com o latifúndio, o qual Valdir defende com unhas e dentes.

Ou seja, sua indicação ao cargo de secretária da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres do Ministério de Direitos Humanos, não poderia ser mais adequada a se considerar o perfil do governo Temer. As pautas femininas que agradam a burguesia e que não tocam na estrutura do capitalismo estão liberadas. O “empoderamento” que se constitui dentro dos marcos do sistema, sem questionamentos da ordem também pode. Já pensar nos direitos das mulheres indígenas em ter suas terras e culturas ou o das mulheres trabalhadores reivindicando o fim do domínio do capital, aí não dá. É quando ela abraça os pressupostos do pai, como quando ajuda a divulgar os preconceitos e as maldades contra os indígenas tais como a postagem no Twitter de um tal de Coroneldoblog: “Os índios são contra Belo Monte, mas querem uma tomada para ligar seu Iphone”. Para os Collato, índio nem pode ficar na selva, porque os querem trabalhadores, nem pode ter telefone, porque os trabalhadores têm de penar no vale de lágrimas, de onde só a classe dominante pode ascender ao paraíso.

Sendo assim, que políticas para mulheres podemos esperar? Mais do mesmo. Qualquer coisa que não ameace as metas e os desejos da classe dominante.