Os narcos gringos

19 de Outubro de 2017, por Waldir Rampinelli


Os sucessivos governos de Washington costumam culpar os latino-americanos como responsáveis diretos pelas drogas que adentram ao território estadunidense. Chegam ao ponto de emitir um certificado de luta anti-drogas aos países que submetem sua soberania aos interesses imperialistas ou punem com a suspensão da ajuda econômica destinada a combater a pobreza todo aquele que, segundo os critérios unilaterais da Casa Branca, não cumpre cabalmente as estratégias de combate ao narcotráfico. 

No entanto, os Estados Unidos – afirma o jornalista mexicano J. Jesús Esquivel em seu livro Os narcos gringos: uma radiografia inédita do tráfico de drogas nos Estados Unidos (Editora Grijalbo, México, 2016, 240 p.) – dispõem também de seus capos, só que com características distintas dos latino-americanos.  
 
No narcotráfico estadunidense não existem os cartéis e tampouco a figura do grande chefe, mas sim a do intermediário (broker), que atua de maneira independente entre um produtor na América Latina e um distribuidor nos Estados Unidos. Como os grandes narcotraficantes se encontram no México e na Colômbia, cabe às organizações criminosas gringas comprarem a droga, sendo o risco da entrega da mercadoria dos vendedores. 
 
O intermediário não está preocupado com a guerra entre os carteis para ver quem põe mais droga nos Estados Unidos e menos ainda com os milhares de cadáveres que a narco violência vai deixando pelo caminho. Ele se considera um empresário dos entorpecentes e, por sua vez, vai enriquecer os mafiosos de qualquer país que lhe forneça o produto.
 
A fronteira entre o México e os Estados Unidos, com seus 3.200 km de extensão, é muito permeável, principalmente entre os estados de Sonora e Arizona, em razão de sua região desértica. Muitos fazendeiros estadunidenses, com seus “ranchos sin vacas”, se valem da situação de vizinhança para cobrar pedágio aos narcotraficantes. “Estes fazendeiros”, conta um agente da patrulha de fronteira, “põem à disposição do cartel de Sinaloa não apenas a infraestrutura e a maquinaria de suas fazendas como também seus empregados que colaboram no transporte, no armazenamento e no empacotamento das drogas, para que diretamente da fazenda sai para seu destino dentro dos Estados Unidos” (p. 119).
 
O intermediário se encarrega de fazer a droga chegar a todos os rincões do país. Para tanto, contrata as transportadoras de cargas, que junto com os demais produtos, levam os entorpecentes. São os conhecidos narcocaminhoneiros ou narcochoferes. A este meio de transporte, agrega-se a participação dos proprietários de automóveis particulares e principalmente pessoas da terceira idade por não levantarem suspeitas, que para aumentar sua renda, se dedicam a levar a droga de um lugar à outro. Entra em ação, então, o trabalho dos distribuidores e vendedores no varejo, que são as gangues, os pequenos grupos de delinquentes e os clubes de motociclistas. Há um componente racista no trabalho do narco nos Estados Unidos.
 
A transferência do dinheiro aos grandes capos latino-americanos tem a participação efetiva do intermediário estadunidense, que para tanto contrata, geralmente, mães de família que viajam com seus filhos de “férias”, levando entre as bagagens das crianças uma maleta com ship que nunca é aberta. Uma vez tendo chegado a um hotel já determinado, a mãe com os filhos nele se hospedam, deixando o carro aberto para que alguém recolha a dita maleta e passe a outra mulher que dará continuidade ao percurso da mesma. Estas senhoras são, geralmente, de classe média, de cor branca, de feições elegantes e com crianças para não levantar nenhuma desconfiança. Deste modo, um verdadeiro trabalho capilar vai fazendo o dinheiro descer do Norte para o Sul, por vários caminhos e por distintas rotas, até chegar às mãos do grande narcotraficante latino-americano.
 
Algo semelhante se dá com o tráfico de armas do país central para os dependentes. Os mais de 100 mil mortos que a violência espalhou pelo México, desde 2006 até hoje, é uma prova cabal do grande contrabando de armamento.
 
O reinado do narcotraficante estadunidense não é longo, quando muito de doze anos, e tampouco acumula ele fortunas como os mexicanos e colombianos. Não usa camisas de seda italiana ou botas de pele de animais exóticos, e muito menos grossas correntes de ouro ou relógios incrustados de diamantes. O protótipo do narco gringo é o de uma pessoa comum e corrente que veste uma calça jeans com camiseta e se locomove em veículos normais. Ele tenta não chamar a atenção, pois sabe que uma vez preso e julgado, passará um bom tempo de sua vida em prisão de segurança máxima. Como as leis são muito severas do lado de lá, o delinquente tenta se preservar.
 
Os grandes ganhadores do tráfico de drogas são as instituições financeiras, que legalizam o dinheiro da economia subterrânea. Dizia um agente da DEA, ao autor deste livro, que se o narcotráfico terminasse nos Estados Unidos, instituições como American Express ou Citybanck iriam à falência. E o pior: contra estes criminosos milionários de colarinho branco, titulados por universidades de prestígio, sentados por detrás do poder econômico e enriquecidos com a lavagem de dinheiro dos narcotraficantes estadunidenses, latino-americanos ou asiáticos, nada se pode fazer.
 
J. Jesús Esquivel comete um erro imperdoável em seu livro, quando afirma que os funcionários estadunidenses ligados às instituições antinarcóticos, são muito comedidos quando tratam destes assuntos no México, já que a Constituição do país asteca proíbe a qualquer agente estrangeiro fazer espionagem e contra espionagem dentro do território nacional. Sabe-se, sabidamente, que isso não ocorre. O caso Camarena, na década de 1990, prova o contrário, como também a Lei de Extra Territorialidade, aprovada pela Suprema Corte dos Estados Unidos.
 
A luta contra as drogas nos Estados Unidos está fadada ao fracasso, enquanto não se priorizar uma politica bem estruturada de educação e saúde públicas, no tocante à demanda e ao consumo de entorpecentes. É urgente parar de culpar o México e a Colômbia e voltar os olhos para os grandes problemas internos que afeta uma parte significativa de sua população. Como afirma Eric Sligh, um plantador de maconha legalizado, “[nós] os estadunidenses queremos drogas, temos um apetite enorme por elas. As drogas fazem parte de nossa cultura, e quem o negue é um hipócrita” (197).
 
A corrupção chega também às instituições que têm como objetivo combater o narcotráfico, tais como DEA, FBI e CIA. Esta última, obcecada na queda do governo sandinista e impedida pelo Congresso de financiar os mercenários da “Contra”, que de Honduras atacavam sistematicamente a Nicarágua, traficou cocaína vinda da Colômbia, passando-a por Tegucigalpa e seguindo viagem para a Califórnia. Ali era vendida nos bairros de negros e de latinos. Com o dinheiro arrecadado, a CIA  financiava as milícias que combatiam o governo revolucionário de Manágua. Era a ideologia se sobrepondo à vida e à saúde do povo estadunidense. Assim agem suas instituições, justificando os meios para lograr determinados fins.
 
Portanto, o doente está do lado de lá, e não de cá.