Os filhos pródigos de Roberto Marinho impassíveis diante da musa Bolsonaro

22 de Outubro de 2018, por Gilberto Felisberto Vasconcellos


O desespero de muita gente é a vitória de Jair Bolsonaro, as mãos atadas dando o inequívoco sinal de que é irreversível seu caminho ao Palácio da Alvorada. Essa é justamente a função da pesquisa eleitoral: a de tirar a vontade de se opor e combater. Esse é o pior efeito da pesquisa eleitoral: deixar as pessoas resignadas, inertes, conformistas e de braços cruzados. 

Schumpeter, adversário contumaz do marxismo, muito estimado teoricamente por Paul Sweezy, assinalou que as grandes corporações multinacionais não mantêm entre si competição, e sim uma relação correspectiva, o que significa que uma grande corporação multinacional não destrói a outra. O peixe grande papa o pequeno, mas o peixe grande convive numa boa com o peixe grande. 

Subindo Jair Bolsonaro ao trono a Rede Globo terá necessariamente de ir para o tombo? O que se diz é que ele dará força para a rival (anúncios publicitários do Estado) da Rede Globo, a empresa Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da TV Record e admiradora de Steve Bannon, o gringo que não caiu do céu judaico-cristão e que é contratado em dólar para realizar pesquisas e orientar campanhas eleitorais. 

Edir Macedo passeia tranqüilo e metidaço em Manhattan tanto quanto em Rio das Flores.

Haverá, para dizer com Schumpeter, uma umbilical correspectividade entre Record e Globo? 

Nenhuma TV pode sofrer um declínio de anúncios e anunciantes, porquanto isso significa a morte da empresa de comunicação. 

Audiência é dinheiro. Não foi por outro motivo que o general Golbery foi paparicado no Jardim Botânico em 1965, um ano depois da quartelada entreguista, que trouxe uma geopolítica midiática. Comunicação é guerra.

O celular não nasceu na lua dos cantadores e amantes. 

A católica Rede Globo assiste à vitória evangélica da TV Record de maneira impassível. O patriarca

Roberto Marinho, um empresário supersticioso tal qual Assis Châteaubriant, poderá erguer-se da tumba e puxar os pés de seus resignados filhos que estão fugindo à luta.

Vale mais a pena vender a empresa do que suar a camisa para que ela continue existindo como propriedade dos Marinhos?

Há quem diga por aí que nessa campanha a “rede social” teria suplantado o papel da televisão. Debate não houve. Horário eleitoral gratuito pífio. 

Ninguém está mais dando bola para o que aparece na televisão em época de eleição. Steve Bannon, amigo do marajá Rupert Murdoch, que é amigo de Donald Trump, deu a dica para Bolsonaro sobre a enganosa aparência idônea da mensagem cyberzap. Aí está segredo da persuasão popular no capitalismo videofinanceiro. 

Cuidado com o apressado funeral televisivo: reduzindo a política a uma espécie de plantão policial, a TV Globo insuflou o anti-petismo, identificando corrupção com o partido dos trabalhadores. Para a direita todo petista é um bandido corrupto sem-vergonha ladrão descarado.

A TV criou o clima moralista neo-UDN para Bolsonaro surfar na maionese. 

TV Globo e Bolsonaro, tudo a ver? Acrescente-se o PSDB playboy do Dória, o PT anti-brizolista e o PSOL pós-moderno se esgoelando no Canecão pop e tropicalista. Assim explica-se a emergência desse líder, que é desprovido de liderança, chamado Jair Messias Bolsonaro. 

Não é a primeira vez que isso ocorre em nosso teatro político. Antes veio Fernando Collor, depois o passeio prussiano de Fernando Henrique Cardoso de cima para baixo com o Plano Real. Itamar Franco de Juiz de Fora turbinou as horas de vôo do candidato tucano. 

Nada vem do nada. Não deixa no entanto de ser um escândalo um deputado, há 28 anos na Câmara, pulando de galho em galho nos partidos, conseguir essa quantidade incrível de votos. 

Um homem de direita que não tem programa social, e que não faz a menor questão de não tê-lo. Dane-se. Uma campanha baseada exclusivamente na moralidade feita nos escombros do governo Temer, de quem ninguém falou a seu respeito no horário eleitoral televisivo.

O tiro saiu pela culatra. Quem deveria aproveitar-se do climatério anti-petista era o Alckmin, tão liberal quanto Bolsonaro. Fato é que este surgiu para bagunçar o plano da mídia dominante que apostou na vigência do petucanismo.

A TV Globo não é a favor do Haddad, mas ela não pode engrossar a conta bancária do Bishop Edir Macedo. A igreja evangélica está tomando o poder do Estado. 

Os talentosos herdeiros de Roberto Marinho ainda não atinaram que a candidatura Haddad não é tão ruim para os seus interesses quanto o aventureiro Capitão da reserva.