O Papa Francisco está na Globo e o Bishop Edir Macedo é dono da Record

16 de Outubro de 2018, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Cena do filme de Pasolini "O Evangelho segundo São Mateus"
Cena do filme de Pasolini "O Evangelho segundo São Mateus"

O alto escalão da Globo News está atônito. Intolerante à candidatura Haddad, mas injuriado com as investidas destemperadas de Jair Bolsonaro. A guerra midiática é contra a Record. 

Nas ruas comenta-se que o Bolsonaro pimpão, ao não participar de debates, não está nem aí para a audiência da Rede Globo. O poder de persuasão desta teria entrado em colapso e isso envolve muita grana. 

Cutucando o braço de Merval Pereira, Miriam Leitão chama a turma para uma conversa franca sob as ordens dos filhos do doutor Roberto Marinho. Nesta conversa Lenin é citado: o que fazer?  Haverá algo de novo? Convém não deslembrar que o último político a conflitar com a TV Globo foi Leonel Brizola, nacionalista e antiimperialista, mas prestem atenção no detalhe: o governador do Rio de Janeiro carecia de televisão e não tinha nenhum canal a seu dispor, diferente do que ocorre com o Capitão da Igreja Universal do Reino de Deus, que conta com o apoio do megafigurão da Record. O partido político de Leonel Brizola era fraco e pequeno, não tinha Igreja que funcionasse como curral eleitoral. 

Nos arraiais semióticos da Universidade Federal de Santa Catarina comenta-se a novidade acerca do triunfo gospel dos crentes. O hedonismo telenovelístico da Globo está com os dias contados. A campanha Bolsonaro-Bannon tem por escopo promover a mensagem cyberzapy em detrimento do veículo televisão. Nos bastidores Jair Bolsonaro ridiculariza os herdeiros do doutor Roberto Marinho e os debates eleitorais. 

Depois de meio século de maré mansa os proprietários da TV Globo são desafiados por um pequeno burguês aloprado. A Rede Globo não teria mais a capacidade em fazer a cabeça dos telespectadores. Os novos ricos proprietários de Igrejas e dos meios de comunicação entram na política para disputar o poder midiático. Os evangélicos estão de olho no judiciário. Este é volúvel e invariavelmente pende para lado do dinheiro. 

Os filhos do doutor Roberto Marinho, incumbidos de preservar o patrimônio familiar que lhe foi transmitido, estão cientes de que neste embate Haddad versus Capitão não se trata apenas de uma batalha partidária, porquanto os crentes da TV Record, sobretudo no Rio de Janeiro, estão levando vantagens em relação aos católicos que reverenciam a Rede Globo e prestam lealdade ao Papa no Vaticano. 

O Papa Francisco, com sua “teologia do povo”, condena a fratura bolsonara entre ciência e fé. É que o Bishop evangélico aboliu de vez a caridade. Que se danem os pobres.

Eis o quadro político midiático: enquanto a mensagem da Globo é volátil e imaterial, não sendo ampliada em determinado local físico, a Record se vale da mensagem eletrônica ancorada  em Templo e  Igreja com os devotos militantes. É por isso que a institucionalidade crente é muito mais eficaz que a persuasão da Globo, e essa persuasão não se faz com sutilezas teológicas entre protestantes e católicos.

Atente-se que a Igreja Evangélica do Reino de Deus nunca deixou de extrair dinheiro do povo, ou seja, a acumulação primitiva do capital foi feita pelo dízimo. Os fiéis e devotos anseiam por um messias salvacionista em meio a um Maracanã cheio de dinheiro. 

O sistema evangélico não lida com o trabalho produtivo e a economia real, e sim com o aparato financeiro. É o comércio do dinheiro que dá dinheiro, ou seja, a trapaça do capital comercial. Capital-dinheiro. 

Edir Macedo em sua vida já foi semi-lumpem-desclassado no interior do Rio de Janeiro. Começou trabalhando em loteria e se fez pela fala, pelo gogó, embora não fale e nem escreva bem. 

Se porventura for eleito Jair Bolsonaro, tirando proveito de uma TV Globo benevolente e autofágica, Edir Macedo será um colega proustiano de Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras.

A burguesia evangélica é pragmática e de inspiração anglo-saxônica. Diferente dos tucanos que falam para uma plateia suíça, os pastores semianalfabetos não se valem de uma linguagem tecnicista com léxico sociológico. 

A vitória do ultra-populista de extrema direita pode ser a derrota histórica da Globo como TV hegemônica. E quanto a isso, a birra neurótica de Gerson Camarotti com o petismo bicho-papão não tem a menor importância. Com Jair Bolsonaro no Palácio a patota globonews perderá o emprego.