O colapso do figurino francês

29 de Janeiro de 2015, por Nildo Ouriques

Em minha defesa não tenho muitos argumentos. Os amigos sabem que demorei mesmo e até o último momento ainda mantinha razões para adiá-lo um pouco mais. No entanto estou convencido que o essencial esta dito e repetido no Colapso do figurino francês. Crítica as ciências sociais no Brasil livro que acabo de lançar pela Editora Insular, de Floripa (Capa de Tadeu Meyer).

A dominação cultural, ou seja, o colonialismo, é devastador no Brasil e possui particular força no meio universitário, entre os chamados acadêmicos. É claro que o colonialismo afeta também as forças ou pessoas tendencialmente críticas, de esquerda, aquelas destinadas a nadar contra a corrente, entre as quais me incluo. No entanto, é fácil perceber que em nossas filas, o figurino francês, esta tendência natural à cópia, a importação das modas intelectuais emanadas da Europa e/ou dos Estados Unidos, sempre gozou de certo prestígio. Alguns de maneira dissimulada chamam o fenômeno de "hegemonia" como meio eficaz para não dizer "colonialismo intelectual e científico" e, em consequência,  ignoram olimpicamente a industria cultural dos países metropolitanos. Muita gente boa entrou nessa, temo que a maioria. Agora, o surrado figurino francês cedeu lugar ao figurino gringo: antes do francês - domínio completo entre as elites dominantes durante quase dois séculos - os esnobes dizem que nesta "nova onda" é preciso pensar, escrever e publicar em inglês.

Aqui no Brasil, mais do que em qualquer outro país latino-americano, todo candidato a crítico (literário, político, cultural, etc) não perde oportunidade e tempo para condenar o nacionalismo. A maioria talvez sequer percebe que a nova moda literária francesa ou o último grito da sociologia estadunidense que invariavelmente adotam, nada tem de universal: é tão somente literatura nacional francesa ou sociologia gringa. O nacionalismo é tema vasto, mas na conduta bocó dos acadêmicos, trata-se de doença tipicamente tropical. Obama ou Zarkozy, ultra-nacionalistas de carteirinha, são considerados governantes preocupados unicamente com o bem da Humanidade e jamais como o que de fato são, ou seja, representantes do interesse nacional das duas potências imperialistas. Somente a superação do divórcio entre marxismo e nacionalismo (a questão nacional) abrirá as portas para a solução de velhos e novos desafios teóricos e políticos necessários para a reconstrução da esquerda revolucionária no Brasil.

Na teoria social, a conduta colonizada que caracteriza o academicismo dominante desconhece a notável contribuição do pensamento crítico latino-americano para a interpretação de nossa realidade. Desconhece também a enorme influência que o programa de pesquisa acerca do subdesenvolvimento e a dependência - uma contribuição latino-americana - exerceu nos principais intelectuais dos Estados Unidos e da Europa (também da África). A teoria marxista da dependência é a mais importante contribuição teórica da esquerda na América Latina para a fundamentação de uma nova praxis política. Não será possível reconstruir o radicalismo político necessário em um país subdesenvolvido e dependente como o Brasil, sem revisá-la profundamente, sem compreender sua notável contribuição para o programa da Revolução Brasileira.

O colapso do figurino francês. Crítica as ciências sociais no Brasil, reúne ensaios destinados a reflexão sobre esta espécie de elo perdido das ciências sociais, cujo esquecimento foi produzido pelos dólares da Fundação Ford que sustentaram centros de estudos como o CEBRAP de Fernando Henrique Cardoso e também pelo veto imposto aos teóricos radicais da teoria marxista da dependência em programas de pós-graduação em economia e sociologia de universidades como a USP e a UNICAMP. Neste momento, tanto à esquerda quanto à direita do espectro político, todos se declaram desenvolvimentistas. Foi precisamente este consenso, produzido pelo consórcio "petucano" no terreno da luta política, que autorizou a retomada da necessária crítica realizada pela teoria marxista da dependência ao capitalismo dependente que sofremos.

Nelson Rolim, editor e amigo, trouxe-me os exemplares num café da manhã, no penúltimo dia desde dezembro triste de 2014.