Magistrados e Congresso Nacional: aluviões da nação

27 de Abril de 2016, por Guilherme Gravina Pereira


Tragédia. Em verdade, o filósofo alemão Karl Marx anunciaria, mais uma vez, farsa. A história do Brasil apresenta-se, nos dias que correm, tal como outrora, 1945, período em que Getúlio Vargas foi sabotado por acreditar que se podia fazer política trabalhista com pessoas de direita. O marechal Gaspar Dutra, PSD, seu vice na ocasião, o traiu nas eleições de 45, elegendo-se presidente da República. Não que eu seja ingênuo em comparar a política do saudoso PTB varguista com a desfibrada política petista, Lula e Dilma. Pelo contrário, todos os acontecimentos que caem sobre nós hoje, feito chuva ácida, não podem ser analisados sem a ótica da política nacionalista iniciada nos anos 30. Até porque, naquele momento, Getúlio Vargas foi o único político em exercício que percebeu a ofensiva norte-americana sobre a economia nacional. Neste primeiro momento, a história apareceu como tragédia, ocasionou, posteriormente, o desfecho lastimável do tiro no peito em 1954. A segunda vez vem marcar a história brasileira como farsa, o espantoso “teatro das sombras”, ou melhor, a tramoia golpista que está levando o país todo ao retrocesso das mais variadas matizes.

Getúlio Vargas que, na contramão dos interesses multinacionais, criou a Petrobras e diversas estatais no intuito de fortalecer e proteger a economia nacional, nossas riquezas naturais, foi crucificado vivo pela burguesia nacional tendo como ponta de lança a UDN. Carlos Lacerda, com o apoio dos veículos de comunicação midiática, alguns deles em seu poder, não perdeu tempo em atacar o gaúcho até que este, heroicamente, deixasse sua vida para nos mostrar a obscuridade histórica que estávamos vivendo. Dilma e Lula não fariam o mesmo pela Petrobras e pelo povo brasileiro, até porque eles têm medo de pegarem nas armas, acreditando que o “Estado democrático de direito” irá salvar as suas peles fragilizadas. Não quiseram dar um chega pra lá nos exíguos grupos familiares que comandam a comunicação e a política no país, agora estão pagando as consequências. Leonel Brizola rompeu com Lula depois que ele conchavou-se com Roberto Marinho. Chegou a publicar essa crítica severa em um de seus Tijoloços denominado de Carta a um Fariseu.

Fiquei estarrecido ao acompanhar, no domingo, a primeira votação no legislativo para a abertura do impeachment. Parecia que estava assistindo a um programa de auditório televisivo da Xuxa, Gugu ou Faustão. Surreal a quantidade de apóstolos, profetas, messias, proclamando a verdade em nome de Deus, passando por cima da laicidade do Estado. Um horror: a inquisição na Idade Média perderia facilmente para a canalhice dos meticulosos xóumeins do congresso. Quero mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai, minha esposa e meus filhos; um alô para fulano e outro para sicrano; em nome Deus, glória ao senhor e que ele tenha piedade de nós; foi assim que se justificaram a maioria dos políticos favoráveis ao golpe, inclusive a vedete do FMI Eduardo Cunha. Alguns até, abertamente, sentiram saudades dos tempos da tortura e evocaram Paranhos e Ustra. Em momento algum foi mencionado, naquele antro de atrocidades, a verdadeira perda que está em jogo. Somente ataques pessoais e privados em um ambiente onde deveriam, antes de tudo, prevalecer os interesses públicos. A canalhice preponderou mais uma vez e os picaretas venceram na canetada os direitos legalmente construídos em nossa nação. 

A história de Leonel Brizola, ao destemido e curioso leitor que se interessar, desvenda toda essa maracutaia. A partir de 1945 ele entrou na política gaúcha, entusiasmado pelo movimento queremista em Porto Alegre, daí para frente destacou-se no cenário político nacional. Comeu o pão que o Diabo amassou em 1964, exilado 15 anos da terra na qual vislumbrava transformações radicais, a começar pelas encampações das multinacionais no Rio Grande do Sul.  Voltou do exílio em 79, deparou-se com a morte do PTB, a miséria crescente nos grandes centros urbanos e o oligopólio da mídia. Teve muito trabalho para dar continuidade ao fio da história, interrompido pela ditadura militar, e acabou por ser abatido em 1989 pelas corporações multinacionais, o “capitalismovideofinanceiro” e a aculturação “vídeo-evangélica” exibidas na tela do doutor Marinho. Leonel Brizola, mais do que ninguém, compreendeu que a situação nacional não pode ser desassociada, em hipótese alguma, da penetração corrosiva das grandes potências capitalistas em nossa economia. Leitor da Carta Testamento sacou, nas entrelinhas do manuscrito, que o velho Getúlio Vargas apontava o imperialismo como o grande vilão a ser combatido. Brizola, dando sequência às diretrizes de Vargas, denominou essa rapinagem perversa de perdas internacionais das nossas riquezas. 

A primeira consideração a ser feita acerca deste espetaculoso fato refere-se à questão crucial: qual é a classe social por trás dessa cortina? Quais são os interesses reais que movem esse episódio? Novamente recorro a Marx: a História separou o mundo, antagonicamente, em duas distintas classes sociais. A primeira é constituída daqueles que possuem os meios para produzirem a vida social; a segunda, produto da primeira, daqueles que precisam trabalhar por não possuírem as ferramentas de construção. A luta a ser travada hoje, primeiramente, tem de ser contra a burguesia nacional, grande empecilho em nossa evolução. Depois, contra os agentes do imperialismo, influenciadores da classe dominante nativa. A ferida que não querem tocar no Planalto é essa: a Petrobras, uma das maiores empresas de energia do mundo, vai ser entregue aos cartéis multinacionais estrangeiros. O petróleo está em seu ocaso, já deu o que tinha que dar, especialmente nas guerras travadas e que perduram até agora no Oriente Médio. É um grande poluidor, ameaçando ruir até mesmo com o “indestrutível” regime capitalista. Armaram a tenda direitinho para que o povo brasileiro, agravo, fosse desastrosamente seduzido quanto ao mal que é uma estatal administrada por corruptores e corruptíveis. A solução que nos cabe então é entregá-la para que os gringos, bonitos, elegantes, bem vestidos, civilizados que apenas querem nos dar uma forcinha. 

Michel Temer, o temor da substituição, será sentido nas entranhas pelo povo brasileiro. A história já nos mostrou em 1992 o desastre que foi Itamar Franco: cipaio adorado da política externa dolarizou nossa economia com o demoníaco Plano Real. Volta-nos como que por coincidência, fabricado na sede da FIESP em São Paulo, cidade satélite, o baixinho galã com sua musa alada, tal qual o caçador de marajás Fernando Collor. Não incorramos no erro de apontar Michel Temer como o único vendilhão da pátria, pois Lula em 2006 já havia se pactuado com Bush, preparando a sacola para o peemedebista fazer a entrega da Petrobras. Destarte, a bola da vez é o PMDB, partido desde sempre aliado às forças golpistas de 64. É descabido que nossa população possa aceitar pacificamente Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Paulo Maluf, Bolsonaro, dentre outros roedores, como o critério de julgamento da verdade.

A compreensão da história nos permitirá, neste momento, focar na autentica batalha que temos à frente. Precisamos ter coragem para enfrentá-la, principalmente a classe operária, possuidora da verdade histórica. Não adianta irmos para as ruas e ficarmos feitos idiotas lutando uns contra os outros. Esse é um momento de união, especialmente dos favelados, dos sem-terra e da classe operária. Somente dessa união é que brotará a salvação das nossas opulentas riquezas e, paralelamente, o povo brasileiro irá ao paraíso. 

Dona Dilma e povo brasileiro, noutra ocasião, já havia alertado: o pesadelo da História não tem despertador. Não adianta dar corda ao relógio se os ponteiros estão enferrujados, é preciso trocá-los. Recorde-se da campanha da legalidade no Rio Grande do Sul, convoque a classe operária, toda a população para a verdadeira luta: contra o capitalismo. Essa é a hora e a vez de uma nova democracia, a sublime democracia dos trabalhadores.