Maceió das Alagoas

7 de Março de 2019, por Waldir Rampinelli


Alagoas é a terra do escritor Graciliano Ramos que pintou em Vidas Secas o retirante nordestino, buscando esperança na cidade grande, mas só encontrando por lá miséria, exploração e morte. Um rosário com tantas contas de dor a contar foi o seu caminhar.

Os donos de engenho, que foram se transformando em usineiros, cobriram os montes e os vales de cana-de-açúcar, destruindo o pequeno chão, espalhando a fome, poluindo os rios, roubando os riachos e jogando nas estradas carradas de desempregados sertanejos. A modernização capitalista é bárbara.

Hoje, 80% da economia do Estado Alagoano depende do açúcar. Ao longo do litoral, bordado de colinas e semeado por praias encantadoras, o canavial se esparrama feito um mar verde se contrapondo ao azul turquesa das águas do oceano. Usinas, com suas chaminés enormes, soltam rolos de fumaça branca contra um céu claro, enquanto caminhões reboques, atolados de cana até o teto, alimentam as moendas correntes e gananciosas. E assim, o açúcar branco e cristalizado, misturado com sangue, suor e lágrimas chega a todos os cantos do mundo.

Nas beiras de estradas, já adentrando às terras dos latifundiários, tripas de casebres aparecem, um depois do outro; cada pequena porta e cada pequena janela abriga um cortador de cana com sua família, que ganha 8 reais por tonelada amontoada. Recebe como menino. Muitas vezes, com chuvas nas costas vai para o trabalho e com chuvas nas costas volta para seu rancho. Quando ele não bate uma produtividade excelente em três dias é demitido pelo capataz e tem que deixar o local; outros, machucados pelo tempo, com lesão por esforço repetitivo, conseguem “encostar-se” no INSS enquanto for possível, sendo mais tarde desligados e abandonados, passando a serem sombras andantes. 

Encontrei na Praia do Francês uma mulher que vendia cangas. Negra, mãe de cinco filhos, rosto avelhantado pela dureza da luta, pele encardida pelo sol abrasante, cansada e sem força para levantar a voz, trabalhava como ambulante para manter os pequenos, já que seu marido, cortador de cana, tinha perdido o emprego e o ombro machucado não lhe dava outra oportunidade. Comprava a vida à prestação e falava como se quisesse enganar o estômago com as palavras. Ver-se uma delas, era ver-se todas.

Este povo explorado do canavial é amaciado pelo messianismo do “deus assim o quer” e pela repressão policial da classe dominante que defende a ordem como o pressuposto do progresso. Por isso, em mais de uma choupana tremulava no alto de um pedaço de vara a bandeira verde amarela. Por certo não estava escrito no centro, como o fizera a Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira: “Índios, Negros e Pobres”. Enquanto isso, a elite açucareira, que de gente só tem os olhos, levanta construções e mansões na sua Maceió, com vistas para o mar, buscando praias privadas e cercadas para banhar-se.

O aprofundamento e o distanciamento de uns em relação a outros é do tamanho das profundezas do oceano. A estas multidões de jogados fora falta a consciência de classe em si e para si, ou seja, menos paz e mais revoltas. Para tanto, basta se espelhar na Serra da Barriga, logo ali detrás dos montes, buscando força nos negros liderados por Zumbi para destruir este sistema injusto, perverso e desumano. Os Palmares criaram uma comunidade com raiz na sua velha África e resistiram, heroicamente, por mais de sessenta anos.

A exploração do usineiro, hoje, é mais violenta que a exploração do dono de engenho, de ontem. Se no passado se davam três dias para o sertanejo plantar a sua macaxera e o seu jerimum, hoje a moenda que mastiga cana madura exige para si a semana toda. Onde tem latifúndio, tem, inexoravelmente, fome.

No dia 24 de fevereiro deste ano, o jornal “Gazeta de Alagoas” estampava a manchete: “Governador Renan Filho gasta 7,8 milhões de reais com aluguel de jatinhos e helicópteros”.  A maioria das viagens, segundo a reportagem, se destinava à Brasília e ao Sul do país para assistir a posse de juízes em tribunais e para prestigiar as nomeações de funcionários indicados para altos cargos da República. Poucas locomoções para dentro de Alagoas, o seu estado, com tantos problemas a resolver e tanta miséria a acabar. A violência institucionalizada da classe dominante contra os pobres só acabará quando os de baixo se levantarem como um furacão, varrendo tudo o que existe pela frente. A história ensina que não há outro caminho.

As Alagoas, de tantas águas e de tantos mares, têm um povo cortador de cana que vive uma lamúria de gente enterrada viva. São tão explorados e tão machucados que a morte parece vigiá-los, todo o tempo. Tomara que um dia, o talho dado na cana seja dado no fim da exploração.