Kit marxista folk

3 de Dezembro de 2019, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Matar a cultura é exterminar um povo
Matar a cultura é exterminar um povo

Amalgamar o marxismo com a ciência do povo não desperta entusiasmo nem de um lado nem de outro, nem da parte dos marxistas nem dos estudiosos do folclore.

Dizem que estou louco, que Luis da Câmara Cascudo era um aristocrata, filho de papai rico, tomava água em copo de cristal. E mesmo depois que o pai morreu, não perdeu sua personalidade aristocrata.

Marx nunca teve vida fácil em termos de dinheiro. Eu penso que no Brasil esses dois saberes científicos teriam de se juntar em um todo teoricamente orgânico. O povo e a classe social indissolúveis.

Marx morreu dormindo aos 65 anos, escrevia até às quatro da manhã, fumava muito e tomava café com estômago vazio.

Quando fui visitá-lo (Luis) pela única vez em sua casa na Junqueira Aires pela manhã, fui informado de que ele só recebia as pessoas do meio-dia em diante.

Ia da rede de dormir para sua máquina Remington de escrever.

O silêncio da madrugada percorre as páginas de seus livros. O melômano. O musicólogo pensando a música depois de ficar surdo.

Ludovico Silva, poeta venezuelano que ensinou marxismo para Darcy Ribeiro, viu semelhança estilística entre Marx e Betoween.

Não deslembrem que no folclore encontra-se a busca incessante da particularidade do Brasil no processo civilizatório.

A sociologia da USP com Florestan Fernandes decretou o imobilismo do folclore como se fosse um túmulo, como se nele estivesse ausente o devir histórico.

Isso não é verdade porque a cultura popular se dinamiza na fala e nas coisas que o povo diz.

Não por acaso Luis da Câmara Cascudo foi exímio linguista e extraordinário semiólogo.

Marx afirmou que a linguagem é a consciência prática do homem.

Creio que o fato de o Brasil possuir um dicionário do folclore deveria ser objeto de reflexão filosófica. Da minhoca ao cosmos.

Em sua totalidade a polis brasileira pode ser expressa pelo léxico do folclore.

Se Karl Marx tivesse vindo para cá, desembarcando na praça 15 no centro do Rio de Janeiro, ouvindo os pregões de rua, decerto iria conhecer o Brasil por Luis da Câmara Cascudo, em cuja obra está transfigurado o jeito do povo viver, sonhar, comer, falar, trabalhar e morrer.

O povo está muito mais em dom Luis do que em qualquer outro grande autor marxista.

O marxismo é a ciência da revolução, mas a ciência da revolução pressupõe o conhecimento do povo em seus quadrantes regionais.

Por isso não vejo antinomia entre folclore e marxismo.

Não vamos cair na esparrela de recusar essa programática revolucionária por não estar visível a luta de classe nas peripécias do Sacy Pererê e nas andanças do lobisomem subproleta que desce do norte para o sul.