João Saldanha, o "João sem medo"

31 de Outubro de 2019, por Nilso Ouriques

   


 
1- Pequena história
 
João Alves Jobim Saldanha nasceu no Alegrete, dia 03 de julho de 1917, ano da Revolução Russa. Apaixonado por futebol, culto, politizado, militante. A política veio do berço sagrado da família Saldanha. João era filho do então advogado Gaspar Saldanha e Jenny Jobim, nascido em meio a um turbilhão de lutas políticas do Rio Grande do Sul. Seu avô era um fazendeiro rico de Livramento que investiu pesado na Revolução Federalista. Com seu pai, lado a lado, seguiu a mesma linha dos maragatos, dos lenços vermelhos. Em 1923 a família exilou-se no Uruguai, em 1924 mudou-se para Curitiba, onde João se aproximou do futebol, ainda novinho, para brincar nos campos do Atlético do Paraná.
 
Quando Getúlio exerceu sua influência regional através do governo do Rio Grande do Sul e depois se mudou em 1930 para o Rio de Janeiro, o pai de João Saldanha foi morar lá, na capital, acompanhando seu líder político. No Rio de Janeiro João adotou o Botafogo como seu time do coração e foi, neste clube, um bom jogador, bem esforçado. Mais tarde se tornou técnico de futebol, jornalista e ferrenho militante do Partido Comunista Brasileiro.
 
Depois de uma curta carreira como jogador, dedicou-se ao jornalismo esportivo onde foi considerado um craque. Suas críticas eram únicas, pois enxergava longe e onde ninguém via nada, João colocava sua voz, dedos e olhar. Com estas condições intelectuais virou técnico do Botafogo Futebol e Regatas do Rio de Janeiro onde em 1957, portanto, com 40 anos, conquistou o campeonato carioca, ficando no cargo por dois anos.
 
2- O militante
 
Em 1935, então com 28 anos, era estudante de Direito na hoje UFRJ, onde ligou-se aos camaradas comunistas. Depois da comuna de 1935 foi expulso da universidade, sitiada pelas tropas de Getúlio Vargas. No PCB, através do futebol, ocupou um posto estratégico em missões na Europa e nos Estados Unidos para denunciar as prisões e torturas do Estado Novo. Casou-se em 1942 e depois do fim da II Guerra Mundial ficou em Paris estudando marxismo- leninismo. Dali viajava para a Europa Oriental onde fazia reportagens acerca dos campos de extermínio.  De volta ao Rio de Janeiro foi trabalhar na Folha do Povo, braço do partido, assumindo a secretaria geral da União da Juventude Comunista, na área de cultura eventos e, obviamente, esportes. Transformou-se num grande líder da UJC e foi preso em 03 de agosto de 1947 em um comício com propaganda comunista, quando tinha exatos 30 anos.
 
Pela UJC participou do I Congresso Brasileiro de Defesa da Paz e da Cultura em 1949 na sede da UNE, onde foi ferido à bala pela polícia e condenado a seis anos de cadeia, sem direito a julgamento. Depois, o comando do partido o mandou para São Paulo, onde foi novamente preso. Em fins de 1949, o partido temendo por sua segurança, mandou-o para a Europa, onde participou de cursos de formação política em Praga e Moscou. Esteve também na China para participar dos festejos da Revolução Socialista.
 
Regressou ao Brasil em 1950, trabalhando na luta dos camponeses em Londrina, com o assentamento de milhares de famílias. Em 1953, em São Paulo, assumiu tarefa importante na greve dos 300 mil. Foram 29 dias de greve sem transporte e sem fábricas paralisando mais de 270 empresas. Voltou ao Rio de Janeiro e assumiu o Botafogo. Em 1959 começou na Rádio Nacional.
 
3-O Jornalista
 
Da Rádio Nacional passou pela Rádio Guanabara ao mesmo tempo em que escrevia no Jornal A Última Hora, e integrava a mesa redonda da Grande Revista Esportiva Facit, na Tv Rio, Canal 13, juntamente com outras feras como Luiz Mendes, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira. Com o golpe de 1964 foi proibido de usar o microfone da Rádio Nacional, indo trabalhar na Continental, em rápida aparição.
 
Em 1966 foi contratado pela TV Globo num consórcio com a revista Facit. Com uma linguagem direta e simples, dizendo tudo o que pensava, João criou seu próprio público no rádio, jornal e na TV, ficando conhecido como o ¨comentarista que o Brasil consagrou¨. Trabalhou na Rádio Globo, Tupi e Jornal do Brasil, levando seu jeito crítico, objetivo e bem humorado assim como seus comentários políticos imprescindíveis. Em 1969 assume a direção técnica da seleção brasileira, preparando a equipe para a Copa de 1970, criando o que se denominou ¨as feras do Saldanha¨, equipe imbatível. Viveu a glória em plena ditadura do General Médici, num Brasil cheio de censura, repressão, perseguições, torturas e assassinatos. Casou-se novamente e em 1986 e participou, na condição de vice, da Chapa Marcelo Cerqueira (PSB)/João Saldanha( PCB). Foi a quarta força eleitoral e fez 7% dos votos. 
 
João casou ainda pela quinta vez e morreu no dia 12 de julho de 1990, em Roma, onde fez questão de ir trabalhar na cobertura da Copa pela TV Manchete. No seu sepultamento os amigos cantaram o hino do Botafogo e o povo ali presente cantou: ¨Força, ação, aqui é o Partidão¨.
 
Por que ¨João sem medo¨?
 
Foi Nelson Rodrigues quem apelidou João Saldanha de “João sem medo”. Ele tinha posições firmes, e não era nenhum maria vai com as outras. Algumas vezes chegava a ser intransigente e mesmo preconceituoso como com os jogadores cabeludos e black powers. Ele acreditava que a cabeleira atrapalhava a visão do atleta e amortecia a bola na hora do cabeceio. Chegou a fazer testes na rua com pessoas de cabelo black powers para demonstrar que estava certo. Nenhuma voz era tão respeitada quanto a sua em se tratando de seleção brasileira. 
 
Para ele, o jornalismo esportivo do período militar foi o mais corrupto da história do Brasil até então. E apesar de seu sucesso nas eliminatórias da Copa, João atacava sistematicamente a ditadura. O regime militar fechou o cerco aos membros do PCB, e em 1969 a repressão culminou com o assassinato de Carlos Marighella, um amigo de longa data. 
 
Isso despertou a ira de Saldanha e ele montou um dossiê no qual citava mais de 3.000 presos políticos e centenas de mortos e torturados pela ditadura brasileira. Feito isso o distribuiu às autoridades internacionais em sua passagem pelo México na ocasião do sorteio dos grupos da Copa, em janeiro de 1970.
 
João era destemido e muitas vezes andava armado, como no caso do suborno do goleiro Manga. O governo Médici procurou de todas as formas derrubar Saldanha da sua posição de técnico da seleção nacional. O então presidente ditador mandou que ele escalasse um jogador chamado Darío. João respondeu: ¨Temos coisas em comum, ele (Médici) é gaúcho, eu também, ele é gremista, eu também. Ele escala o ministério, eu convoco a seleção, assim nos entendemos bem¨.
 
O ataque de João lhe valeu a demissão e ele foi substituído por Zagalo que, sem mexer em nada do que Saldanha havia feito, acabou campeão do mundo, recebendo todas as glórias do jornalismo, que segue corrupto até hoje. João não se lastimou e carimbou uma frase histórica no programa Roda Viva em 1985, resumindo a sua queda diante das pressões do governo: ¨Considero Médici o maior assassino da história do Brasil. Ele nunca tinha visto o Dário jogar. Aquilo foi uma imposição só para forçar a barra. Recusei um convite para jantar com ele em Porto Alegre. Pô, o cara matou amigos meus. Tenho um nome a zelar. Não poderia compactuar com um ser desses.¨
 
João sem medo continuou sua militância para derrubar a ditadura, que cairia em 1985. Em 1987, trabalhando na TV Manchete eu o trouxe a Joaçaba para uma palestra no clube Dez de Maio, no aniversário da cidade. João veio, com o desprendimento de militante. Lotou o clube de admiradores que nunca o tinha visto pessoalmente, foi uma grande noite. Todas as suas histórias vieram à tona, sempre no mesmo tom. Desceu no aeroporto de Chapecó e viemos lado a lado até Joaçaba. Ele olhava a destruição da floresta da estrada, perguntava onde estavam as araucárias, trocadas pelos pinus de produção industrial, afirmava que havíamos destruído tudo, e mais uma vez estava certo. No hotel tomamos chá e discutimos política, o ajudei a subir as escadas, já que lhe faltava fôlego devido ao enfisema pulmonar que o perseguia há anos pelo longo período de tabagismo. 
 
João, sentado em uma mureta da prefeitura, viu a troca da guarda da bandeira, na semana do município, e afirmou espantado, ¨isto a ainda existe¨ , baixou a cabeça e sorriu. O velho militante podia estar cansado, mas nunca desistia tampouco perdia o senso crítico. João sem medo morreu enquanto fazia a cobertura da Copa da Itália, em 1990, aos 73 anos. Uma perda irreparável para o jornalismo militante e inteligente.