Guiana francesa se levanta

28 de Março de 2017, por Maicon Cláudio da Silva

Greve geral - milhares nas ruas
Greve geral - milhares nas ruas

A Guiana Francesa amanheceu nesta segunda-feira (27/03) imersa em luta.  Os trabalhadores da “Union des travailleurs guyanais” (UTG) votaram por unanimidade greve geral ilimitada a partir desta segunda. A UTG, principal associação sindical da região, reúne 37 sindicatos de todo o território guianense. As manifestações promovidas levaram milhares de pessoas às ruas em uma região com pouco mais de 250.000 habitantes.

O território da Guiana acumula grandes dificuldades sociais. A proporção de homicídios é quatro vezes maior que a da região de Marseille, na França, por exemplo. Uma em cada quatro famílias da Guiana Francesa vive abaixo da linha da pobreza e o índice de desemprego atinge 22%, contra 9,7% na França metropolitana. Cerca de 40% dos jovens deixam a escola sem diploma. O território também não consegue administrar a explosão demográfica, provocada por altas taxas de natalidade e de imigração, vinda de vários países, inclusive do Brasil. A população da Guiana cresce 2,8% ao ano. Faltam equipamentos públicos de assistência social.

As reinvindicações são generalizadas, mas todas de cunho social: segurança, melhores condições de saúde, de transporte, etc. Os guianenses alegam que são “Os esquecidos da República” em alusão à metrópole. Por isso se mobilizaram durante semanas para chegar até essa greve geral.

A Ministra de Ultramar Ericka Bareigts planeja uma possível visita à Guiana Francesa, logo que as condições permitirem. Enquanto isso, uma missão interministerial foi enviada no sábado a este território ultramarino pelo primeiro-ministro francês Bernard Cazeneuve. O objetivo seria supostamente um diálogo construtivo. Treze dos vinte e dois prefeitos do território se recusaram a encontrá-la, e os quatro parlamentares guianenses se mostram céticos. "Já existem altos funcionários na Guiana como o prefeito, e já existem muitos que vieram. Então nós sentimos que não há nada mais a oferecer", disse a comitiva do deputado socialista Chantal Berthelot.

Além dos partidos conservadores ou progressistas tradicionais (PSG, FDG, LR, etc.) há na Guiana Francesa partidos que lutam pela independência como o Movimento de Descolonização e Emancipação Social (MDEs) e o Walwari, partido próximo ao socialismo, com nome que referencia um dos povos indígenas da região. A adesão a esses grupos deve crescer por ocasião das mobilizações e pela reinvindicação de autonomia neste território localizado a 7.000 quilômetros do continente europeu.

Guiana Francesa: Um dos últimos territórios coloniais na América Latina

Centro Espacial de Kourou
Centro Espacial de Kourou

Com uma superfície de 83.846 km², a Guiana Francesa é uma das últimas regiões não independentes da América Latina, junto a Porto Rico (Ocupado pelos Estados Unidos) e as Malvinas (Dominadas pelo Reino Unido).

Ainda que geograficamente faça parte da América do Sul, pela semelhança histórica e cultural do seu processo de colonização, a região é muito mais próxima do Caribe. Cerca de 98% do seu território é coberto pela Floresta Amazônica, o que faz dela uma das regiões mais ricas em biodiversidade e ecologicamente menos fragmentadas do mundo.  O potencial econômico da biodiversidade e do turístico são extremamente interessantes à metrópole europeia.

A Guiana Francesa ganhou maior importância para a França e Europa, sobretudo após a construção do Centro Espacial na cidade de Kourou, região próxima à linha do Equador, o que facilita as decolagens de satélites e naves. Lá, a Agência Espacial Europeia desenvolve boa parte de suas pesquisas. 

Além da biodiversidade, turismo e dos lançamentos espaciais, a mineração do ouro é um dos principais interesses da França na região. Vários brasileiros, sobretudo da região de fronteira, têm sido atraídos para a Guiana em busca de uma vida melhor. A França, em uma postura unilateral, passou então a exigir visto para brasileiros que queiram visitar a Guiana Francesa. Ironicamente, para realizar turismo na França metropolitana o documento não é exigido.