Greve Geral na Guiana Francesa prossegue

11 de Abril de 2017, por Maicon Cláudio da Silva

Os indígenas dos seis povos originários da Guiana Francesa se somaram às manifestações.
Os indígenas dos seis povos originários da Guiana Francesa se somaram às manifestações.

Depois de três semanas, permanece a greve geral na Guiana Francesa. As manifestações no território ultramarino, uma das últimas regiões não independentes da América Latina, começaram no dia 27 de Março com a greve geral decretada por unanimidade pela “Union des Travailleurs Guyanais” (UTG), a principal central sindical do país, que reúne os 37 maiores sindicatos. Os motivos que levaram à greve são vários, mas a maioria em consequência do agravamento dos problemas sociais, como a violência, a imigração, as precárias condições de saúde, educação, etc.

Além da greve, uma série de manifestações tem ocorrido pelo território, e dentre elas a mais impactante é o bloqueio do trânsito de ruas e rodovias estratégicas, em especial o acesso à Base Espacial de Kourou, controlada pela Agência Espacial Francesa com apoio da Agência Espacial Europeia.

Apesar da longa duração das mobilizações, as negociações com o governo francês não tem avançado. Na semana passada a Ministra de Ultramar, pasta que veio a substituir o antigo Ministério das Colônias, juntamente com o Ministro de Interior da França, apresentou uma proposta que destinava 1 bilhão de euros a alguns dos problemas sociais levantados pelos manifestantes. A proposta, no entanto, foi recusada pelas organizações populares que haviam apresentado um documento de mais de 400 páginas de reinvindicações. Esperava-se no mínimo 2,5 bilhões de euros que antedessem todas as áreas elencadas.

Na última sexta-feira (07/04), em frente à Prefeitura de Caiena (representação do Estado francês no território ultramarino), o coletivo "Les 500 frères" (Os 500 irmãos) de luta contra a violência, conclamava a população a permanecer mobilizada dia e noite em frente ao edifício e boicotar as eleições presidenciais francesas que ocorrem no fim do mês. Em meio à mobilização, um policial foi ferido.

As manifestações continuam, mas como é comum a toda sociedade de classes, logo os conflitos aparecem. Nesta terça-feira, pela primeira vez uma organização contrária às manifestações, o coletivo “Pou Lagwiyann circulé” (Para a Guiana circular, em creole) marchou em direção à Korou, cidade que abriga o Centro Espacial. O coletivo reivindica o fim dos bloqueios de rodovias, e o conselheiro territorial e empresário Denis Burlot apresentou uma queixa na Delegacia contra as obstruções ao trânsito.

Por ocasião da marcha, houve um encontro entre os membros do coletivo contrário aos bloqueios e José Mariéma, um dos chefes do movimento Pou Laguiyann dékolé (Para a Guiana decolar, também em creole), que organiza as barricadas. Segundo jornal France-Guyane, José Mariéma perguntou aos opositores o que eles propõem para que haja entendimento com o governo, e questionou: “O governo nos faz andar em círculos, nos deu duas ou três migalhas, mas não se importa. Então o que devemos fazer?”. Em resposta, uma empresária lhe disse que “as dificuldades em que se encontram as empresas devem levar os organizadores das barragens a suavizar seu movimento”. Não por acaso, a presença de brancos é muito maior nas manifestações contrárias às barricadas que nas favoráveis.

Marcha do Coletivo Pou Lagwiyann Circulé, contrário aos bloqueios de rodovias, na cidade de Korou.
Marcha do Coletivo Pou Lagwiyann Circulé, contrário aos bloqueios de rodovias, na cidade de Korou.