Enfrentando os caminhos: desde baixo e em rebeldia

9 de Novembro de 2017, por Elaine Tavares

Comunidades zapatistas no México: outra forma de organizar a vida
Comunidades zapatistas no México: outra forma de organizar a vida

Conferência realizada pela jornalista Elaine Tavares, do IELA, durante o encerramento do Singa (Simpósio Internacional de Geografia Agrária), em Curitiba, no dia 05 de novembro. 

Todo o debate realizado aqui mostrou que a terra é hoje, e sempre foi, o ponto central das disputas no mundo. Mas queria colocar uma questão para a gente pensar: por que, nesse momento histórico nós somos os “de abajo”. Responder esse ponto nos leva a refletir sobre nossa realidade. Somos os “de baixo” porque nos tocou viver dentro do sistema capitalista de produção em que para que um viva, outro tenha de morrer. Essa é a lógica e a natureza desse modo de produção. E é assim que se constitui um em cima e um embaixo.

Vivemos na América Latina, esse é o nosso espaço geográfico. Lugar que o sistema elegeu como periferia. Como já apontou o teórico Günder Frank nosso capitalismo é e sempre será dependente, uma forma específica de capitalismo, o outro lado da moeda. Não somos um espaço “em desenvolvimento”, ou passível de desenvolvimento. Por aqui, já dizia Frank, só pode se desenvolver o subdesenvolvimento.

Então, sendo periferia do sistema capitalista, na ordem das coisas o que nos cabe é ser exportador de matérias primas. Então, para o sistema, precisamos apenas plantar grandes extensões de terra, monocultura, e deixar que os grandes tirem do solo todas as demais riquezas.  Não nos cabe, na divisão internacional do trabalho, produzir ciência, conhecimento, manufaturas, nada. 

Dentro das nossas fronteiras contamos com uma elite que atua como sócia menor do grande capital, sem qualquer sentido de amor pela pátria/mátria ou pelo povo do lugar. A pátria dessa gente é o dinheiro. Por isso mesmo, como afirma Ruy Mauro Marini, vive também um processo de cooperação antagônica com o imperialismo, servindo a ele nos seus interesses, se comportando como um exportador de matérias primas, e por outro lado, buscando constituir também uma periferia que lhe sirva, atuando como subimperialista na América Latina. O que não lhe tira a função de periferia do capital. 

Sendo assim, nesse sistema, nós, os trabalhadores, estamos fadados à superexploração, também um conceito de Marini, ou seja: trabalhamos mais tempo, com mais intensidade e o salário que recebemos, a maioria de nós, está abaixo do que seria necessário apenas para manter a vida. Essa é a condição da superexploração. Ou seja, o capital mete a mão no nosso fundo de vida. Não satisfeito com isso agora procura estender a vida dos trabalhadores, a partir da indústria farmacêutica, e ao mesmo tempo tirar deles a possibilidade da aposentadoria. Mais tempo de exploração. Isso acontece aqui no Brasil e em todo o mundo onde esse direito foi conquistado.

Na geografia do capital somos um território de saque. De recursos naturais e humanos. Desde 1492, quando a Europa – notadamente Portugal e Espanha – mundializam a realidade e, com suas navegações e invasões  globalizam a economia, não tivemos mais as condições materiais de garantir soberania. 
Antes da chegada dos europeus tínhamos nosso próprio modo de organizar a vida, que não era como o feudalismo europeu, que não era o capitalismo. Nos grandes estados que se conformavam aqui a lógica era tributária e as relações sociais marcadas por outra lógica. Na maioria dos povos imperavam outros elementos e formas de ver o mundo. Cito aqui quatro princípios que aparecem em praticamente todas as culturas viventes nesses espaço antes da conquista.

1  - Princípio da Correspondência – Tudo se corresponde, o pequeno com o grande, o interno com o externo, a terra com o cosmo. Por isso os fenômenos de transição como as nuvens, os montes, os solstícios, as fases da lua são coisas sagradas. Tudo liga o hapaq pacha(espaço de cima) ao kay pacha (o aqui, agora) e ao ukhuy pacha (mundo dos ancestrais).

2  - Princípio da complementariedade – Todas as coisas têm uma contraparte, um ser sozinho é incompleto, a oposição não serve para paralisar, mas para dinamizar a realidade. Há uma relação nas oposições, um equilíbrio dialógico. 

3  -  Princípio da reciprocidade -  A cada ato deve corresponder um ato recíproco, seja entre humanos, humanos e natureza, humanos e divindades. A ética, portanto, não está limitada ao humano apenas. Há uma ética cósmica. Para eles a reciprocidade não é um ato de vontade individual, mas um dever cósmico que reflete a ordem universal da qual o ser humano é parte. Isso é o que determina o senso de justiça.

4  -  Princípio da ciclicidade  - o tempo e o espaço são coisas que se repetem, há um movimento circular ou espiral interminável. Cada círculo é um ciclo, uma estação. Não há nada de novo, tudo volta. O tempo é uma relacionalidade cósmica, como o bater de um coração. Para eles o tempo se divide entre o antes e o depois e tem densidade, tempo forte, tempo fraco. Cada lapso no tempo tem o seu propósito e não é dado ao homem pressionar o tempo. Tudo é feito na hora que tem de ser feito.

Claro que não era o paraíso, havia guerras, havia formas de escravidão, enfim... Mas, as culturas se moviam e avançavam. 

Pois bem, tudo isso foi destruído violentamente pela conquista. Arrasadas as cidades, os estados, as culturas, o pensamento. 

O resultado disso tudo foi a colonização violenta: do território, do pensamento, da política, da economia, da cultura e da arte, de tudo. As grandes extensões do território, que tinham um caráter comunitário,  viraram propriedade privada, um modo de vida deixa de existir para nascer outro fundado na exploração das terras e das pessoas. 

O hoje

No mundo globalizado a vida é comandada desde fora. Nesse tempo que Lenin chama de imperialismo, os monopólios ditam as regras, que são internacionais, ou seja, valem em todo o planeta. Consolida-se a ideia de que o capitalismo é uma ordem que melhora a vida das pessoas no geral, basta que a gente se esforce. 

Com isso, passa-se a inviabilizar os grupos e classes que lutam/resistem em nível local. Os interesses dos monopólios capitalistas transnacionais aparecem como os interesses gerais, contando para isso com a parceria dos meios de comunicação que universalizam interesses particularistas.

Sendo assim, se tudo está globalizado, eles perguntam: importância tem a luta de um milhão de índios, quando está em jogo a melhoria de vida de bilhões de pessoas? Por que preservar um parque, um rio, se milhões podem ser beneficiados com a produção de energia? Essas são verdades que a mídia corporativa – braço armado do capital – reproduz. O controle do espaço sempre serve aos interesses do capital. Por isso há que inventar um consenso de que há muita terra para pouco índio, que os sem terra destroem as matas (o agro negócio sim é pop, é tec, é vida). Há que dizer que os quilombolas são inúteis e que não pode meia dúzia de negros querer discutir um tempo que já passou. Por isso, o sistema capitalista, com o apoio das mídias comerciais procura destruir conceitos como comuna, soviets, ejido, ayllu, terras comunais, porque eles implicam em outra forma de organizar a vida: comunitária, coletiva. Tudo que implica local, nacional, comunitário é completamente rechaçado pelos gestores do capital.

É nessa “vibe” que nós estamos, entrando inclusive numa nova era, com a aparição e o lento consolidar de outro império: o chinês, que é a grande nova locomotiva do mundo capitalista globalizado. Se vocês prestarem a atenção verão o quanto a China está entrando com força na América latina, não apenas vendendo bugigangas, mas abocanhando territórios, comprando terras, financiando negócios gigantescos, como a obra do canal na Nicarágua, por exemplo, ajudando a destruir e a reprimir as lutas locais. A China tem sido desde 2009, o principal parceiro da América Latina – em alimentos e matérias primas – tanto que os portos do Pacífico já ultrapassam os do Atlântico em negócios.  

Bueno, resumidamente é essa realidade que nos coloca no campo dos “de baixo”. 

E, sendo os de baixo, oprimidos com tanta violência, nada mais nos resta senão a rebeldia. E isso não é coisa de agora. Na nossa Abya Yala essa rebeldia começa poucos meses depois da chegada da frota de Colombo, quando o cacique taíno Hatuey percebe que aqueles homens que ali estão não vieram em paz. Ele então rema de Dominica até a ilha de Cuba para organizar a rebelião... 

E desde aí, é a história... Estamos, então, desde o final do 1400 em contínuo processo de luta contra a dominação. Por vezes temos alguma vitória, mas no geral, perdemos. 

Como pátria grande tivemos agora, na contemporaneidade, um momento único, quando Hugo Chávez vence na Venezuela e traz com ele a espada e as ideias de Bolívar. Pela primeira vez desde a conquista, vários países da AL encontram um caminho conjunto de resistência e pela primeira conseguem impor uma estrondosa derrota ao império, impedindo a consolidação da Alca. Importante lembrar que esse processo começa em 1994, quando os zapatistas no México se levantam em armas, num momento em que o mundo globalizado alardeava o fim das grandes narrativas, o fim das utopias.  E esses índios esquecidos de Chiapas incendeiam o mundo com suas armas e sua palavra. Hugo Chávez vem logo depois e a América Latina começa a viver um período no qual palavras como soberania, pátria grande, cooperação passam a ter sentido real. 

Depois, vêm as grandes mobilizações indígenas no Equador, na Bolívia. Vem a virada na Argentina, no Uruguai, na Nicarágua, Brasil, Paraguai, enfim, uma configuração jamais vista. No nosso território a ilha de Cuba resistira sozinha por muito tempo, e agora tinha parceiros. Foi um momento estelar. Telesur, Banco do Sul, Unasul, fraternidade com o Caribe, essa região esquecida e desconhecida. 
Mas, esse ascenso popular não ficou barato. O império respondeu com força. Tentativa de golpe na Venezuela (2002), Invasão do Haiti (2004), golpe em Honduras (2009), golpe no Paraguai (2012), permanente ataque a Venezuela, golpe no Brasil (2016) e em meio a tudo isso, violento rechaço às lutas que, ao fim e ao cabo, são lutas pelo território. O capital, querendo abocanhar tudo e os indígenas, quilombolas e empobrecidos na batalha por terra e moradia. Nessa guerra contra os trabalhadores e os empobrecidos vale tudo: assassinatos, desaparições, aplastamento. Nada muito diferente do que sempre foi. 

No Brasil, vivemos nosso drama também. Um governo que por 13 anos teve a possibilidade de fazer reformas estruturais, e que não as fez. Teve a chance de organizar os trabalhadores, e não o fez. Ao contrário, cooptou e domesticou. O resultado foi o que vimos em 2016. Um golpe judiciário/parlamentar dado, e a completa incapacidade de reação. A classe trabalhadora, mesmo aquela fatia que saiu às ruas em grande número num primeiro momento, como bem avalia o Plínio Sampaio Jr, estava desarmada, e não tem conseguido ainda dar a devida resposta ao golpe. Tudo acontecendo numa sequência vertiginosa.

E com o golpe, vamos vivendo também uma regressão igualmente vertiginosa. Perda de direitos, fascistização da vida, fortalecimento da oligarquia rural, regressão ambiental, a legalização da escravidão, fundamentalismo religioso. A treva total.

Os monopólios, que são o governo mundial, seguem firmes reordenando o espaço geográfico conforme seus interesses, e a modernização conservadora segue a passos largos, aparentemente sem encontrar adversários à altura. Vivemos perdas e perdas. 

Diante disso a questão que se coloca é: que fazer?

Temos dois caminhos: ou seguimos acreditando que o capitalismo pode ser humanizado e centramos as baterias na disputa de espaços dentro do sistema, na disputa das políticas públicas para melhorar aqui e ali, ou pegamos o touro à unha, direto nos cornos. Conspiro da segunda opção. A conciliação de classe e a tentativa de “negociação” com o capital já mostraram definitivamente que não é possível caminhar em união com o sistema: não há possibilidade de vida melhor para a maioria, não há desenvolvimento sustentável. No capitalismo, não há. 

O capitalismo já mostrou que não está preocupado com as pessoas. Não tem piedade, nem compaixão. Não está preocupado com o comunitário, com o bom viver. Seu destino é crescer e acumular. É um metabolismo sem controle como diz Mèszaros. 

A única saída para os de baixo é destruir o capitalismo, criar nova forma de organizar a vida. Com um detalhe: na América Latina, precisa levar em conta a nossa herança originária. Nenhuma proposta pode ser construída sem a participação efetiva do mundo originário. Até porque é esse mundo que hoje faz a luta de resistência mais importante. A luta real pelo território. A luta pela natureza, que não é pastiche nem ritualizada em firulas pós-modernas. A proposta do mundo originário é o bem viver. Temos que dar ouvidos a isso. Incorporar essa cosmovisão à nossa velha ideia de socialismo. No caso do Brasil, onde a maioria da população é negra, esse povo também tem de ser ouvido. Suas memórias de África, sua cosmovisão, sua forma de organizar a vida. Esse é o desafio... Incorporar as formas de viver daqueles que conformam nossa matriz como povo, e que já dispunham de mecanismos para o bem viver no passado.

Não se trata de voltar no tempo, mas de tirar desse passado o que foi bom e constituir outro tecido, no qual esses elementos sejam reinventados. Um encontro real entre o mundo originário deste nosso espaço geográfico, com o dos negros que foram trazidos à força e com o socialismo, que foi a resposta europeia ao capital. Tudo isso pode nos levar a uma proposta nova de vida. 

Então, a desalambrar, como diria Daniel Viglietti, ou os sem terra... A desalambrar. Romper as cercas do capital e caminhar para a felicidade.