Elogio a Glauber Rocha

25 de Julho de 2016, por Nildo Ouriques


Quando vi por primeira vez aquela parte do documentário realizado por Silvio Tendler chamado "Glauber Labirinto do Brasil", no qual Darcy Ribeiro faz eloquente discurso em homenagem ao amigo morto, julguei apressadamente que, talvez, se tratasse do tradicional exagero que costuma acompanhar uma perda definitiva. Darcy dizia ser Glauber o "mais indignado" de toda uma geração, um sujeito que oscilava "entre a esperança e o desespero" porque o Brasil nunca realizava nossas imensas possibilidades.

Aquele pungente discurso de Darcy me tocou profundamente. Após ver e rever muitas vezes, guardei a cena como quem guarda um trecho decisivo de um autor importante ou ainda o verso de poema triste como aquele de Cesar Vallejo, à disposição da memória para ilustrar uma situação real. (Me moriré en Paris con aguacero, un día del cual tengo ya el recuerdo. Me moriré en París - y no me corro - tal vez un jueves, como es hoy, de otoño").

Na semana passada encontrei num sebo de Salvador - o Sebo do Brandão - um velho e preservado exemplar do livro Revolução do Cinema Novo (1981) de Glauber. Estou lendo aos pedaços, na verdade aos saltos, movido pelas sacadas sucessivas do gênio baiano que surgem a cada página. A oralidade da escrita é insuperável, Não conheci alguém capaz de afirmar seu estilo com tanta força. Pode-se imaginar Glauber falando, feito vulcão, convincente, profundo, seguro, profético. 

Alguém poderá afirmar tardia minha descoberta. É fato. Eu devo a Gilberto Vasconcellos a insistência sobre a estética de Glauber, de quem já tinha visto todos os filmes sem perceber a grandeza e profundidade do fenômeno. Enviei a Giba quase tudo de Ludovico Silva e alertei à ele sobre Gunder Frank e Marini. Na boa, nada de troca desigual entre nós. Troca de equivalentes. Mas Glauber tem algo de muito especial. É síntese potente entre política e cultura.  

O livro "Revolução do cinema novo" é uma profunda reflexão sobre o subdesenvolvimento e a dependência. Sem risco de errar afirmo que Glauber bebeu fundo nas teorias sociológicas sem a boçalidade acadêmica. É claro que o cinema dele e de sua geração fazem parte do amadurecimento político e intelectual de uma época, de um amplo e inédito amadurecimento da inteligencia brasileira e latino-americana. É produto e impulso de um movimento cultural destinado a descolonizar o Brasil e reconciliá-lo completamente com a América Latina. A idolatrada semana da arte moderna é impotente diante do cinema novo. Incrível como se recorda a primeira com o mesmo método com o qual se esquece o segundo. O Brasil estava, de fato, ficando muito inteligente a partir da força do nacionalismo reformista cujo ápice foi o governo de Jango. Em perspectiva e sem saudosismo inútil, é possível ver como os últimos anos no Brasil não reverteram em maior consciência política. Não temos um movimento cultural em curso e tampouco começando. O colonialismo comanda a vida cultural. Além do grito contra o golpe, o tempo que corre é de horizonte utópico miserável. É claro que existem tentativas de sair desta insuportável alienação político-cultural; é até extraordinário perceber como muita gente não se vende e não se rende em semelhante situação. No entanto, esta admirável resistência molecular não se expressa em movimento cultural contestatório e anti-colonizante pois quase todos querem entrar no orçamento da política pública. No fundo, a maioria dos ativistas e autores no terreno da cultura querem mesmo é um lugar ao sol aqui e agora, despreocupados ou até mesmo ignorantes da Revolução Brasileira. 

Glauber conhecia tudo de cinema. Era super bem informado sobre a industria cultural dos esteites e com a mesma segurança dominava a crítica ao cinema argentino, cubano, mexicano. Versava sobre Lukács e a estética condenando tanto as manifestações demagógicas da esquerda no terreno da cultura quanto a alienação de direita turbinada pela indústria cultural gringa. "Monstro produtor de ilusões e devorador de alienações, o cinema americano não pode deixar de gerar similares que logo sentiram a necessidade de devorar o pai pra sobrevier. Qualquer conversa sobre cinema fora de Hollywood começa por Hollywood".  Quanto aos expectadores brasileiros, a "imagem da vida" diz Glauber, nascia do cinema americano! Em consequência, a ditadura artística sobre o filme anacional era inevitável. Ainda é assim ou até pior, pois o exito agora parece estar confinado à condição de "melhor filme estrangeiro" na festa da industrial cultural estadunidense, o tal Oscar. Tragédia!

Eu poderia seguir repetindo as grandes sacadas de Glauber até reproduzir as 472 páginas do livro que tenho sobre a mesa. Ele analisa produtores, autores, agências, personagens, filmes com aquela oralidade felina invejável. Aulas de técnica cinematográfica sem vacilar um segundo no nobre objetivo de construir um cinema revolucionário.

O anti-imperialismo não é panfleto nem bordão morto na sua análise: é principio que organiza um projeto cultural próprio, emancipatório, revolucionário. É mundial porque pretende expressar a rebeldia da periferia capitalista e enfrentar o cinema europeu e estadunidense sem vacilação, complexo ou submissão colonial. Glauber sabia tudo sobre o cinema europeu, estadunidense e especialmente o latino-americano. Neste, conhecia a qualidade de nossos cineastas, escritores, nossos dramas, as opções, os detalhes da produção de um filme importante, a política de financiamento e comercialização como se estivesse falando da Embrafilme. Ademais, o conhecimento de Glauber sobre a cultura brasileira é espantoso!! É um conhecimento vital, em larga medida temperado pela vivência direta com situações e pessoas, articulado milimetricamente com sua teoria do Brasil e da Revolução Brasileira. Glauber não se perde no argumento, é preciso na informação, certeiro no golpe. 

Glauber seguirá sendo nosso gigante da cultura durante muito tempo. Eu entendo agora mais do que nunca as razões pelas quais a política cultural do Brasil durante todos estes anos produziu o esquecimento de sua obra. A política cultural do estado brasileiro - comandado por democratas ou golpistas - não se afasta um segundo da produção do esquecimento sobre este sujeito luminoso. 

Não poderei terminar amanhã a leitura sistemática do livrinho bomba atômica que comprei na Bahia há uma semana. Mas logo que recuperar as energias novamente não largarei o tomo até devora-lo completamente. É pura luz, necessária para economistas, sociólogos, antropólogos e também para engenheiros, médicos e advogados, pois à ninguém esta vetada a cultura. Mas Glauber é particularmente importante para nós de esquerda e para todos aqueles que se definem com maior ou menor rigor como de esquerda. Glauber Rocha é a linha política e estética que divide quem esta com a cultura brasileira e quem esta com o colonialismo dominante. Enfim, define quem esta com a Revolução Brasileira e quem está com a reprodução cultural e política do subdesenvolvimento e a dependência.