Economia e república capitalistas à deriva

12 de Dezembro de 2016, por Maurício Mulinari


O Produto Interno Bruto (PIB) caiu por mais um trimestre. O dado indica apenas uma coisa: a economia capitalista brasileira está à deriva. Vamos para o segundo ano consecutivo de recessão. A queda de 2016 já é de 4%. Somada a queda de 2015, já temos quase 8% de PIB ladeira a baixo. A produção industrial (mais importante para entender a economia capitalista do que o PIB), despenca com ainda mais força. Queda desde o final de 2013. A indústria de transformação caiu 8% apenas nos últimos quatro trimestres. A formação bruta de capital fixo, pior ainda, -13,5%. A importação de bens de capital – que dá uma ideia mais acertada da renovação do capital fixo nas atividades industriais brasileiras -, mensurada em dólares, despencou mais de 50% nos últimos três anos. A queda só se acentua. 19% em 2015 e 23% em 2016. Paralisia total do processo de acumulação de capital no país. Sem perspectiva para recuperação em 2017, já que com a contração do comércio internacional, mesmo a desvalorização cambial que dava sobrevida para os setores exportadores, vai perder efeito.

Da paralisia do processo de acumulação, emana o caos da política burguesa brasileira. Os problemas se acumulam e a classe dominante nacional bate cabeça. A crise financeira de estados e municípios já começou – vide a praça de guerra que se tornou o Rio de Janeiro – e vai estourar em 2017 por todo o país. Crise que também está na União. Capacidade zero de socorrer os demais entes da federação. Ministérios com verba comprimida pela PEC 55, aquela do congelamento do futuro. Exigência do capital, imposta goela abaixo da casta política, apavorada pelos agentes do Imperialismo da Lava Jato. Verbas parlamentares também secando. Incapacidade de sustentar os pactos políticos que deram alicerce ao golpe. Temer, Renan e o restante do PMDB nas cordas. Tucanos e Demos articulando pelas costas o golpe dentro do golpe. A única pauta que avança no parlamento, a passos largos, é a destruição das condições de vida da classe trabalhadora e o entreguismo das riquezas nacionais.

Economia em direção ao naufrágio

Em tempos de crise, os capitalistas reagem sempre da mesma maneira: ampliam a taxa de exploração da classe trabalhadora (desemprego, rebaixamento salarial, reforma trabalhista, etc.), reforçam o assalto ao Estado (PEC 55, manutenção do sistema da dívida pública, sonegação fiscal sistemática, corrupção e desonerações fiscais) e o aumentam a repressão física e psicológica da população. Estes são aspectos fundamentais para retirar a acumulação de capital da paralisia. Além disso, as economias dominante do sistema, assim que sentem os efeitos da crise, rebaixam fortemente as suas taxas de juro. Assim, potencializam o lucro industrial e impulsionam a retomada do processo de acumulação.

No Brasil, os economistas da ordem, resumem sua receita aos primeiros três pontos. Simplesmente não enfrentam o tema do parasitismo do rentismo nacional. Este parasitismo, não permite a recuperação da economia “real”, tendo em vista os fabulosos rendimentos e no baixíssimo risco encontrados nos títulos públicos. A cabeça dos economistas vulgares brasileiros, educados pelos manuais e pelos papersdos EUA, não  apenas deixa intocado o tema do rentismo, como também o defende abertamente. Afirma que a manutenção da política de superávit primário é cláusula pétrea. Manter a sustentabilidade da dívida em relação ao PIB, lei sagrada. Não percebe que está conduzindo a economia brasileira para o buraco.

A economia capitalista brasileira não decola se não enfrentar o tema da dívida e do rentismo. Pode realizar as reformas que forem, pode lançar a classe trabalhadora na miséria estrutural, que mesmo assim não irá recuperar a acumulação de capital. A própria burguesia dependente, ignorante e despreparada para defender sua propriedade privada, já começa a se dar conta disso. Entretanto, está tão imbricada no jogo financeiro que não tem capacidade para enfrentar seriamente este debate. Não tem nenhuma perspectiva de apresentar um projeto nacional de recuperação econômica. Está completamente refém, desde 1964, da retórica imperialista. Não combate este tema e continua virando comida para as multinacionais, sejam elas norte americanas, europeias ou chinesas. Não enfrenta os problemas estruturais brasileiros e está conduzindo o país para uma crise social sem precedentes, com desdobramentos imprevisíveis.

A atual política suicida da burguesia nacional começou com a dupla Dilma/Levy no final de 2014. Antes disso, porém, os intelectuais/burocratas alinhados ao petismo passaram mais de uma década administrando e defendendo a Lei de Responsabilidade Fiscal -cria do imperialismo para doutrinar os países periféricos, que agora sofre mutação e se transforma na PEC 55. Depois disso, quando a crise capitalista internacional de 2008 evidenciou o peso do rentismo nacional, tentaram criar a famosa “nova matriz econômica”. Durou pouco, não mais que dois anos. A desilusão daqueles que querem sempre estabelecer pactos lucrativos para a classe dominante foi tremenda. Na esperança de recuperar a atividade industrial estagnada desde 2011, deram tudo que os capitalistas nacionais supostamente queriam em 2012. Crédito subsidiado via BNDES (Plano de Sustentação do Investimento – PSI), taxas de juros reais compatíveis com o restante do mundo (Selic em baixa e bancos públicos reduzindo o juro ao cliente final) e uma enxurrada de desonerações fiscais (folha salarial, IPI, PIS/Cofins, etc.).

Trotsky já dizia que “somos traídos apenas por nossas próprias ilusões”, e a resposta burguesa veio no estilo de uma classe dominante típica de um país dependente. A estrutura capitalista de concentração de riqueza, nunca enfrentada por Lula e Dilma, cobrou seu preço. A classe dominante pegou o montante fabuloso de recursos concedidos pelo Estado e apenas reforçou a sua posição de domínio da propriedade privada e do poder. Fusões e aquisições e a criação de grandes monopólios, concentração fabulosa da terra urbana e rural através da especulação e hipertrofia do sistema da dívida pública foram os resultados. Fruto da incapacidade teórica dos intelectuais alinhados ao petismo de entenderem a natureza da elite brasileira e de, principalmente, romperem a tempo com o pacto de classes que já era completamente insustentável.

Da desilusão com o sonho pequeno-burguês de um Brasil onde “todos ganham”, veio a crise financeira do Estado e a ideia estapafúrdia do ajuste recessivo comandado pelo executivo do Bradesco, Joaquim Levy. Dilma e o PT bancaram, mesmo depois de ter prometido o oposto nas eleições de 2014. Assim começou o famoso ajuste recessivo, assim a grande mídia arquitetou a narrativa do “estelionato eleitoral” e preparou o terreno do golpe. A ideia era de que o ajuste criaria as condições para ampliar a exploração da classe trabalhadora, turbinando os lucros que já não eram os mesmos desde o desabamento do preço dos produtos brasileiros de exportação.

No início do ajuste, que derrubaria o investimento público do Estado (Dilma cortou em 40% o investimento público nos primeiros meses de governo) e provocaria o desemprego e a queda do consumo, o lucro financeiro sustentado na dívida pública garantiria os lucros e a propriedade burguesa intocada. Caiu o lucro operacional, despencou os índices de produção, e se mantiveram turbinados os lucros financeiros – os balanços das grandes empresas demonstram isso claramente. Não por acaso, saltou de R$ 300 bilhões o gasto do Estado brasileiro com juros em 2014 para R$ 500 bilhões em 2015. Injeção de lucratividade na veia das grandes empresas capitalistas e dos magnatas donos do capital, assalto ao Estado em nome da propriedade privada.

O grande capital estava assegurado. Banqueiros, latifundiários, grandes industriais e grandes comerciantes, todos se refestelando nos lucros financeiros.  Dificuldades em ascensão para a pequena burguesia produtiva e para a ideologia do empreendedorismo, incapazes de frequentar o camarote do sistema financeiro nacional. De outro lado, trabalhadores passaram a viver em penúria, desemprego nas alturas e renda despencando. Da ideologia burguesa da “nova classe média” para a realidade da classe trabalhadora explorada e pauperizada. O desemprego saltou, ainda no governo Dilma, de 4% para 12%. A renda despencou 4%. A rotatividade do mercado de trabalho aumentou. As grandes empresas aproveitaram a oportunidade e ajustaram seus quadros de funcionários. Menos pessoas realizando as mesmas tarefas, ampliação brutal da intensificação da jornada de trabalho. A cartilha liberal era tocada sem qualquer consideração pelo sofrimento provocado ao povo trabalhador.

Entretanto, ao não enfrentar o tema do rentismo – a presidenta Dilma chega ao extremo de vetar a auditoria da dívida pública -, a estratégia liberal naufragou já no início de 2016. O que era bônus financeiro no curto prazo, transformou-se em custo industrial. O lucro líquido das empresas capitalistas produtivas despencou em função do custo financeiro. Tal fato ocorreu por três motivos. 1) as taxas de juros subsidiadas do BNDES foram eliminadas, fazendo com que as empresas passassem a buscar empréstimos (basicamente para capital de giro, mas também para aquisição ou aluguel de bens de capital) com as novas e elevadíssimas taxas de juro disponíveis; 2) a nova política cambial, desvalorizando fortemente o Real, encareceu as enormes dívidas das empresas em moeda estrangeira, contratadas no período pós crise de 2008, onde os EUA e a Europa praticaram taxas de juros próximas de zero e; 3) os grandes volumes de empréstimos e de lançamento de títulos de dívidas privados, fruto do período de centralização de capital dos anos da “nova matriz econômica” (2011-2013), passaram a ter que ser liquidados pelas empresas.

Pari passu ao aumento do custo empresarial, a receita do Estado passou a despencar com a retração econômica, tornando insustentável o pagamento religioso dos juros, amortizações e refinanciamentos da dívida pública. Aqui é preciso lembrar um ensinamento de Marx. Para a acumulação de capital ocorrer, a taxa de juros precisa ser inferior a taxa de lucro industrial de qualquer economia. O aumento da taxa de exploração do ajuste Dilma/Levy não foi capaz de recuperar a taxa de lucro para além da maior taxa de juros do mundo. Como mexer na taxa de juros na nossa república rentista está fora de questão para a classe dominante, era necessária uma nova rodada de aumento da taxa de exploração dos trabalhadores, mais violenta e destrutiva. Neste contexto entra o golpe. Era preciso um governo sem qualquer cheiro de trabalhador. Dilma, Lula e o PT, por mais servis que fossem ao capital e por mais que o marketing eleitoral tentasse disfarçar, ainda tinham cheiro e vínculo com a classe trabalhadora. Era o fim da aventura da ala esquerda da democracia burguesa.

O golpe se completa, executado pelo próprio Estado burguês (Ministério Público, Polícia Federal, Parlamento e Judiciário) e seus aparelhos auxiliares (grande mídia, OAB, FIESP, CNI, CDLs, etc.). Entra em curso a nova rodada de destruição das condições de vida da classe trabalhadora, assalto ao Estado e controle ideológico do povo. PEC 241/55, lei da mordaça, reforma do ensino médio, reforma da previdência, privatizações, entreguismo das riquezas nacionais e a futura reforma trabalhista. Tudo na pauta do golpe, tudo explicitado no documento do PMDB de outubro de 2015: “Uma ponte para o futuro”. O PMDB de Michel Temer assume o governo. Loteia os ministérios e as Estatais com os aliados. Supostamente, as melhores expectativas (conceito adorado pela vulgaridade econômica) e as reformas resolveriam o problema da acumulação de capital. Ledo engano. Passado meio ano de governo golpista, a crise só se aprofundou, com um adicional explosivo: o conflito aberto entre a casta política e o poder econômico.

Casta política e poder econômico medem força

O poder emana do povo, este é um mantra verdadeiro. Entretanto, esta emanação não se faz de maneira imediata, como a ilusão vendida pela democracia burguesa faz crer. O poder, criado pelos trabalhadores que produzem a riqueza social, se concentra e especializa. Criam-se instituições do poder, atravessadas por relações de classe. As forças armadas, por exemplo, são atravessadas por uma hierarquia militar onde os soldados/trabalhadores trabalham e obedecem e os oficiais/classe dominante mandam e têm status social diferenciado. A alta burocracia do Estado (Judiciário, Ministério Público, órgãos do executivo e do legislativo, etc.), por sua vez, é composta pelos filhos da classe dominante. Educados nos sistemas de graduação e pós-graduação da universidade brasileira, principalmente da pública, aprendem desde cedo a defender os interesses do imperialismo. Atrás do discurso tecnicista, esconde-se o sistema universitário criado pela ditadura militar, que vinculou estreitamente o modelo educacional brasileiro aos interesses do Imperialismo norte-americano.

Aqueles jovens que irão ocupar os cargos executivos das empresas capitalistas estudam juntos com aqueles que irão ocupar os cargos dentro da burocracia estatal. Aprendem as mesmas teorias e modelos. Todos importados dos manuais de economia, direito, engenharia, sociologia, etc. produzidos nos Estados Unidos. Pensam igual, passam a frequentar os mesmos espaços de convívio social desde a juventude, são amigos, casam entre si, têm relações de parentesco, etc.. Todos, até mesmo os filhos da classe dominada, educados pelos mesmos valores burgueses. Prontos para operar o sistema de poder capitalista assim que ocuparem as posições de destaque. Longe de teorias da conspiração que atribuem um poder oculto ao Imperialismo, é aí, no modelo educacional e nas relações sociais, que se consolida a relação orgânica entre poder político, poder econômico e Imperialismo.

Esta é a relação entre “mercado” e Estado. Simbiose entre capital e Estado burguês. Num país dependente, simbiose entre burguesia nacional entreguista, Imperialismo e Estado burguês. Cria da ditadura. Vitória dos setores militares entreguistas contra o modelo de Estado e sociedade nacionais desenvolvimentistas, experimentados no período varguista de nossa história. Esta simbiose, no entanto, é mediada pelo véu da democracia burguesa: o sufrágio universal. Esta conquista histórica dos trabalhadores, garantida através do apoio das massas às revoluções burguesas dos países centrais, permanece na sociedade capitalista apenas como potência. Ele, como não deixaria de ser, também é deturpado pelo poder econômico, que transforma as eleições em verdadeiro balcão de negócios.

Mesmo assim, a potência do sufrágio permanece ali, como um incomodo aos capitalistas. A classe capitalista é antidemocrática por natureza, não gosta do sufrágio universal. Gosta apenas de mandar sem nenhum tipo de mediação. É isso que ela faz com a força de trabalho na sua relação mais essencial: a exploração da mais valia. A democracia traz para a casta política, eleita nos sufrágios, uma autonomia relativa ao poder econômico e ao poder do Estado burguês. Aqui aparece o pavor que os liberais têm do que eles chamam de “populismo”, momento em que a casta política, aproveitando-se de líderes populares, começa a incidir autonomamente sobre o poder econômico e o Estado. Qualquer processo revolucionário na atual quadra histórica, de consolidação do assalariamento como forma hegemônica de sociabilidade nos países periféricos, precisa entender o papel fundamental da democracia participativa e das lideranças nacionais na construção das condições para o socialismo. Mas isso é assunto para outro texto.

O que cabe aqui ressaltar é que esta autonomia relativa da casta política brasileira não se expressa, obviamente, em lideranças populares. O que aparece é a lentidão, a covardia e a resiliência na forma de condução das reformas necessárias para o capital retomar o processo de acumulação. O interesse que move um parlamentar não é o mesmo das necessidades de reformas anti populares. Os parlamentares, com sua fortíssima razão de conservação, são contrários a mudanças profundas, mudar lhes coloca em choque com suas “bases” financeiras e eleitorais. Mudanças profundas criam readequações nas correlações de força. Trazem novos atores políticos à cena, destroem velhos atores consolidados. A razão burocrática, que é em última instância a razão parlamentar, não gosta de mudanças, pelo contrário, é conservadora ao extremo. Para o capital, esta razão é útil em períodos de normalidade da acumulação capitalista. Quando é necessário recriar as relações de produção, atual etapa do capital no Brasil, este conservadorismo se torna uma barreira.

Este é o atual momento político no Brasil. O Estado burguês e seus aparelhos pressionam os parlamentares a tomarem as medidas que são necessárias ao capital. A operação Lava Jato é um claro instrumento do Estado brasileiro, submetido aos interesses imperialistas, para pressionar a casta política. Prisões, espetáculos públicos, linchamentos, manifestações de apoio a Sérgio Moro, etc. A pressão vem de todos os lados, transformando Brasília, que até pouco tempo atrás era um paraíso de prostituição, festas e banquetes, no inferno dos parlamentares. Os banquetes oferecidos por Temer são uma forma singela de lembrar aos parlamentares que, caso fizerem o trabalho sujo, em breve poderão voltar a ter seus momentos de prazer e descontração na formosa capital da república. Aí está o único consenso que sobrou de toda a bandalheira parlamentar: a unidade em torno das reformas contra a classe trabalhadora. Nos demais temas, é um jogo de matar ou morrer, onde cada um tenta garantir apenas a sua reeleição em 2018.

Neste caos, onde o PMDB vê seus principais líderes sendo fritados, quem corre por fora e acumula forças é o velho tucanato. São os quadros mais qualificados para enfrentar o tema da destruição dos direitos trabalhistas, sem contar que já foram testados e tiveram sucesso durante os governos FHC. São a opção número 1 do capital para comandar o processo já em 2017. A crise só se aprofundou com Temer, a instabilidade social é cada vez mais explosiva e é preciso soluções. Se Temer não reverter a queda livre do seu governo, os tucanos, como bons oportunistas, venderão falsas soluções e ocuparão posições de destaque. Entretanto, como é certo que ninguém desta turma enfrentará seriamente o rentismo, a crise irá permanecer, com desdobramentos imprevisíveis para o fim de 2017.

Caminhos da esquerda: necessidade de ir além da pauta parlamentar

A pauta parlamentar dominou as lutas da esquerda em 2016. Já havia sido assim em 2015. Mesmo dentro deste horizonte, tivemos a grata surpresa do movimento de ocupação das escolas de São Paulo, que soube aproveitar da pauta reativa contra a reforma do ensino e transformá-la em uma luta criativa e ofensiva, gerando uma grande derrota do governo de Geraldo Alckmin. O dado mais expressivo, toda a luta foi feita a despeito e contrariamente as posições dos aparelhos burocráticos do movimento estudantil (UBES, UNE, etc.). Estas lutas estudantis se espalharam pelo Brasil em 2016 e conseguiram fazer a única oposição consequente ao governo Temer. O debate público pela consciência da massa trabalhadora em torno da PEC 241/55 foi vencido pela esquerda, única e exclusivamente, em função das ocupações das escolas e Universidades iniciadas pela rebeldia dos secundaristas paulistas.

Apesar da reforma passar – o inteligente Renan Calheiros utilizou a urgência na futura aprovação da PEC 55 como moeda de troca para livrar sua situação junto ao STF -, os estudantes e trabalhadores que participaram das movimentações acumularam em consciência política. Já sabem, intuitivamente, que nada de bom podem esperar deste governo e do parlamento. Será assim também com a reforma da previdência que foi recém lançada e, em 2017, com a reforma trabalhista. Entretanto, o restante da esquerda, excetuada a experiência estudantil, até agora, apenas jogou o jogo parlamentar, sem avançar para além dele. Se persistir apenas neste jogo, está fadada ao fracasso histórico nos próximos anos.

Não menosprezo estas lutas que surgiram em torno da resistência aos ataques da classe dominante contra o povo trabalhador. Foi daí que saímos da paz de cemitério que dominava a política brasileira sob o comando de Lula e Dilma. Daí que surgirão novos quadros políticos, capazes de substituir os velhos, cansados e conservadores. Entretanto, a luta parlamentar oculta o verdadeiro desafio da classe trabalhadora e de sua vanguarda política. É preciso lembrar que a mesma razão burocrática que habita a prática da casta política nacional, também habita os aparelhos organizados da classe trabalhadora. Sindicatos, movimentos sociais, partidos de esquerda, organizações populares de base, também estão dominados pelos velhos burocratas, com suas velhas práxis. Por trás do discurso da unidade entre as organizações (frentes populares, unidade entre centrais sindicais, fusão de partidos, etc.), sem qualquer conteúdo programático, apenas na oposição aos ataques do governo golpista, esconde-se o medo das burocracias de perderem seus espaços de poder. Não se trata de unidade, mas sim de um pacto de não agressão, firmado para garantir as velhas posições de poder. O mero loteamento das estruturas de luta dos trabalhadores. Dominadas pela despolitização e a desmobilização, fruto de anos de uma estratégia permanente de pacto de classes.

A pauta parlamentar é usada como subterfúgio de organizações oportunistas  para evitar o debate sobre qual sociedade queremos e como a construiremos. Evita que o movimento estudantil enfrente o tema da sala de aula, de qual a educação necessária para a construção de uma nova sociedade. Evita que o movimento sindical faça da sua práxis diária uma luta contra o capital, contra a exploração, e não apenas se reduzindo ao cumprimento das obrigações legais do sindicato e a alguns atos esporádicos contra uma PEC ou outra. Evita que o movimento popular realize formações políticas de base que coloquem em cheque as suas próprias lideranças despreparadas, que viram seu projeto político pseudo reformista fracassar brutalmente. Evita que os militantes dos partidos questionem a atuação personalista e oportunista de seus parlamentares, que na luta contra as reformas vendem a imagem de combativos, mas pelas costas, costuram acordos e se movem por interesses inconfessáveis de autopreservação. Enfim, tira o horizonte da luta concreta do cotidiano, da possibilidade de “pequenas grandes” vitórias (greves, paralisações, enfrentamentos diários) e desloca para o foco para o parlamento burguês. Aí vence a ideia de que não podemos vencer a batalha se não elegermos os “nossos” parlamentares, iniciando o novo ciclo da ala esquerda da democracia burguesa.

A ideia de que só é possível resistir nessa conjuntura é uma fraude criada pelos oportunistas. A arte da guerra e da política ensina que o objetivo da defesa, posição em que a esquerda está atualmente, é obviamente conservar posições. Todo tempo que evitamos o avanço do atacante é de proveito do defensor. O atacante perde forças, se desgasta, erra com mais frequência e permite que a esquerda acumule forças onde antes não existia. Mas, um grande autor Da Guerra, Carl von Clausewitz, já afirmava que “uma guerra em que as vitórias só servem para conter os golpes e em que não se tenta retribuí-los seria tão absurda como uma batalha em que a defesa absoluta (passividade) prevaleceria em todas as medidas tomadas”. A defesa só tem sentido se for recheada de permanentes ataques contra a classe dominante. Somente se for utilizada como preparação para o avanço ofensivo subsequente, aproveitando-se de todo o instinto de vingança que os trabalhadores acumularão nas agruras da defesa.

Isso só se constrói elencando como objetivo primordial da luta política a mudança radical do capitalismo. A construção do socialismo, fim da exploração do homem pelo homem, e o tema da revolução brasileira, devem estar no centro da pauta. Não existe outra maneira. Antes de mais nada, o objetivo político da guerra é o que define o gênio guerreiro dos lutadores e a natureza das táticas e estratégias de luta. Somente resgatando o horizonte utópico, colocando como objetivo político final da luta a construção de uma sociedade para além dos interesses capitalistas, torna-se viável a retomada da combatividade dos quadros políticos e a vitória futura. O capital não oferece mais as migalhas do melhorismo economicista. A experiência histórica recente do golpe e as reformas subsequentes mostraram isso cabalmente.

As pautas particularistas, economicistas e afirmativas só poderão avançar se colocarem em cheque o rentismo e a propriedade privada, além das relações de produção que daí emanam. A conjuntura só vai acelerar, a radicalidade burguesa vai aumentar. É o fim das ilusões pequeno burguesas. O movimento e a readequação das forças políticas é a regra. Rachaduras se abrem na concepção conservadora que antes era monolítica dentro da esquerda. O fim das ilusões abre a possibilidade de criação de um novo radicalismo político, capaz de dar uma resposta adequada ao tamanho do ataque capitalista. Cabe à classe trabalhadora se organizar como única saída. Sem organização, baseada no que há de mais desenvolvido e testado historicamente da teoria da revolução proletária, a burguesia completará seu plano. Plano que ainda nem temos a exata dimensão de onde termina. A agressão será de longa data, nem a burguesia sabe até onde avançará contra os direitos da classe trabalhadora.

A luta e o conflito estão em pauta. Quem nega o conflito no dia a dia da política, joga o jogo do capital, mesmo que supostamente esteja do lado de cá das trincheiras. Estes, que gritam “Fora Temer” e, ao mesmo tempo, boicotam as lutas do cotidiano, também são inimigos de classe. A coragem de colocar em cheque a práxis política conservadora que vigorou até aqui, é a principal virtude a ser resgatada pela militância. É necessário, urgentemente, criar um programa mínimo que aglutine as lutas daqueles que estão em busca de uma nova sociedade. Não unicamente baseado em pontos de resistência, contra as PECs, MPs e outros ataques que certamente virão. Nesta estreiteza política, saem fortalecidos apenas os oportunistas e conservadores, o que nos levará novamente para a cooptação pela esterilidade parlamentar/eleitoral. É preciso colocar na ordem do dia o avanço concreto contra a classe dominante. É momento de crise. Crisis, do latim, momento de separação, decisão, definição.