Dostoiévski e a propriedade privada

8 de Novembro de 2017, por Maicon Cláudio da Silva


Quando Karl Marx iniciou sua obra maior, O Capital, o fez partindo do estudo da mercadoria porque, em seu entendimento, esta é a forma elementar do sistema capitalista, no qual a riqueza é percebida como uma “enorme coleção de mercadorias”.

Na mercadoria se encontram engendradas uma série de complexas relações sociais, e são essas relações que a tornam mais que um simples produto genérico. O produto em geral é simples resultado do trabalho humano e está presente em qualquer sistema social, desde o mais primitivo até o mais complexo. A mercadoria não. Como o próprio nome pressupõe, ela tem como objetivo atender ao mercado. Não possui mais, portanto, relação direta com as necessidades imediatas do homem que a produziu.

Sendo destinada ao mercado, a mercadoria pressupõe, portanto, a existência da propriedade privada. E é sobre ela, e o poder que essa adquire sobre a vida humana com o desenvolvimento do capitalismo, que trataremos aqui.

A propriedade privada capitalista não é o mesmo que a simples propriedade privada. A propriedade privada também existiu em outros modos de produção. Ainda que não tenha existido (nem deva existir) em todas as épocas e em todos os lugares. Marx, por exemplo, em sua resposta a Vera Zasulitch sobre se a Rússia deveria transformar a propriedade comunal em propriedade privada antes de fazer a revolução, deixa claro que este processo não seria necessário, e que a passagem da propriedade comunal primitiva para a propriedade comunal socialista, caso pudesse ocorrer antes do domínio capitalista se completasse na Rússia, significaria um grande ganho civilizatório, na medida em que o povo russo já teria consolidado moralmente os valores comunais. Já a propriedade privada capitalista só existe a partir do momento em que surge o capital, a separação entre os trabalhadores e os meios de produção e subsistência, e a produção passa a atender as exigências de acumulação do capital.

A partir do momento que a propriedade privada capitalista se consolida, ela passa a ditar a dinâmica da vida humana em vários aspectos. Ideologicamente as classes dominantes precisam igualar a sua propriedade privada capitalista, dos meios de produção, à pequena propriedade privada dos trabalhadores, seus poucos pertences. A propriedade passa a ser santificada como um princípio inviolável. E do ponto de vista capitalista tem que o ser, porque sem propriedade privada capitalista não existe capital.

Um curioso exemplo sobre o poder que a propriedade privada capitalista atinge no capital é dado pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski em sua novela inacabada O Crocodilo. Na estória o funcionário público russo Ivan Matviéitch é engolido vivo por um crocodilo que estava em exibição em uma galeria de lojas de São Petersburgo. A partir de então se inicia uma discussão política se se deveria ou não abrir a barriga do animal para retirar o homem, que ainda estava vivo, diga-se de passagem. Além disso, o fato de o dono do crocodilo ser alemão piora a situação ainda mais, visto o receio da elite russa em afugentar os capitais estrangeiros.

Os especialistas (economistas, juristas, administradores) saem na defesa do capital estrangeiro e da propriedade:

“E, quanto ao alemão, na minha opinião pessoal ele está no seu direito, e mais até do que a parte contrária, pois entrara no crocodilo dele sem pedir licença, e não foi ele quem entrou no crocodilo de Ivan Matviéitch, que aliás, tanto quanto posso lembrar, nunca possuiu sequer um crocodilo. Ora, o crocodilo constituiu uma propriedade e, por conseguinte, não se pode abrir-lhe a barriga sem uma compensação.” (p. 31)

A mídia, cumprindo seu papel ideológico, espalha mentiras e cria falsos consensos:

“Mas eis que ontem, de repente, às quatro e meia da tarde, aparece na loja do proprietário estrangeiro certa pessoa desmesuradamente gorda e em estado de embriaguez; paga o ingresso e, no mesmo instante, sem qualquer aviso prévio, introduz-se pela goela do crocodilo, o qual, naturalmente, não tinha outro remédio senão engoli-lo, até por mero sentimento de autodefesa, para não engasgar.” (p. 59)

Por fim, justifica-se que Ivan Maviétch (os trabalhadores) deve estar feliz por poder servir ao capital:

“Nós mesmos nos afanamos para atrair os capitais estrangeiros à nossa pátria, mas veja bem: mal foi atraído para o nosso meio, o capital do homem do crocodilo duplicou-se por intermédio de Ivan Maviétch, e nós, em lugar de proteger o proprietário estrangeiro, queremos abrir a barriga do próprio capital de base. Ora, há coerência nisto? A meu ver, Ivan Matviéitch, como um verdadeiro filho de sua pátria, deve ainda alegrar-se e orgulhar-se com o fato de ter duplicado, ou talvez triplicado, com a sua pessoa, o valor de um crocodilo estrangeiro. Isto é necessário para atrair os capitais.” (p. 33)

Ainda que inacabado, o texto de Dostoiévski é uma importante alegoria sobre como o capital (crocodilo) ganha uma importância cada vez maior que o homem (Ivan Matviéitch), a ponto de quando o primeiro devora o segundo, é a ele que se sai em defesa. É essa enorme coleção de mercadorias ditando os rumos da vida humana. Vale a leitura!