Dom Romero é santo

15 de Outubro de 2018, por Elaine Tavares

Dom Romero em sua igreja
Dom Romero em sua igreja

Ele não era comunista. Apenas vivia num país conflagrado, com as gentes em luta contra uma ditadura, um governo militar que assassinava todos aqueles que ousassem discordar dos métodos violentos que usava para se manter no poder. Dom Oscar Romero, arcebispo na cidade de San Salvador, em El Salvador. Ele cuidava de sua igreja e até confiava na junta militar, porque dela fazia parte o Partido Cristão de El Salvador. 

Mas, naqueles dias, do final dos anos 1970, o país vivia uma guerra civil, que cobrou quase duzentos mil mortos. Dom Oscar fazia às vezes de mediador, entre o governo e as famílias que tinham gente presa ou desaparecida. Durante todos os anos que andara pelo país como padre, havia conhecido as raízes da miséria do povo. Sempre fora um sacerdote generoso, com profunda sensibilidade para o sofrimento das gentes. 

Chegou a arcebispo porque era considerado um padre conservador, nunca esteve ligado ao movimento da Igreja de Libertação, embora toda sua vida tivesse feito a escolha de servir aos mais pobres. 

Quando a ditadura se instalou com o golpe militar de 1979 em El Salvador, Dom Romero viu a violência se acirrar e o desespero dos seus paroquianos. Quando no início do ano de 1980 dois padres foram assassinados por tentarem proteger os camponeses que buscavam abrigo em suas igrejas, Dom Oscar viu que não podia mais ficar na posição de mediador entre o povo e o governo militar. Era chegado o momento de tomar uma posição. E ele decidiu ficar do lado do povo. Assim, passou a denunciar os crimes do regime na rádio e no jornal que a igreja mantinha.

Em suas missas, domingo pela manhã, ele também denunciava e lia o nome de todos os que haviam tombado pelas balas do governo ditatorial. Era sua forma de protestar.

As missas de Dom Romero passaram a ser libelos de resistência e de luta. E as famílias que viviam todo o drama da violência passaram a ver nele um aliado e protetor. Mas, ter o arcebispo da capital em ação contra o governo militar passou a ser um acinte para os que sustentavam a ditadura. E, no dia 24 de março, numa manhã de domingo, enquanto rezava a missa, numa capela do Hospital Divina Providência, para pacientes com câncer, Dom Oscar foi atingido por um único tiro que o deixou sem vida em frente ao altar. O assassino foi um atirador de elite do exército salvadorenho, a mando do então major Roberto D`Aubuisson. E Dom Oscar entraria para a lista dos mais de mil mortos daquele ano.

Não bastasse o assassinato do arcebispo o governo ainda atacou as gentes que participaram no seu funeral, deixando naquele dia triste, mais uma lista de 42 mortos. A partir daí a guerra civil acirrou e deixou o país devastado, com mais de nove mil desaparecidos e milhares de mortos.

Desde então, Dom Romero passou a ser celebrado pelas gentes de El Salvador como um santo. Porque, podendo optar por ficar ao lado dos ditadores, preferiu o martírio junto com seu povo. Em 1997 o papa Dom Paulo II o nomeou “servo de Deus” e em 2015 teve início seu processo de beatificação, sendo reconhecido pelo Vaticano como um mártir.

Ontem (dia 14 de outubro), o bispo do povo foi tornado santo, numa cerimônia comandada pelo Papa Francisco e as gentes de El salvador celebraram com festa e alegria. Afinal, para elas, Dom Romero era mais que santo, era um companheiro que, no infortúnio, nunca lhes faltou. Dom Romero deu sua vida pelo povo do país onde nasceu e onde aprendeu a lição da solidariedade e do amor.

Dom Romero, um homem simples, conservador, apegado à religião, poderia ter optado pelo silêncio diante do horror. Mas, não. Ele entendeu a mensagem de Jesus e ficou do lado dos oprimidos. Estirado diante do altar, rodeado por sua gente, ele expirou, mas seu sangue não foi derramado em vão. Desde aquela manhã seu nome passou a ser um símbolo de fé e de resistência, acalentando a luta de tantos salvadorenhos que batalharam para trazer o país de volta para a democracia, coisa que só aconteceu em 1992.

Hoje é um dia de festa. Dom Romero vive para sempre!