Do encontro de Manoel da Conceição com Mao Tse Tung

7 de Agosto de 2020, por Carlos Walter Porto-Gonçalves

Manoel da Conceição
Manoel da Conceição

Não, não se trata do título de mais um best sellers da literatura de cordel. Não, e o encontro ocorreu de verdade. Relembro do fato como uma homenagem a esse brasileiro que todos devíamos nos orgulhar de termos como compatriota. Homem sofrido por torturas e por tantas mortes de familiares e companheiros de luta que viu cair a seu lado e que, ainda, tem o corpo aleijado por balas que lhe fizeram amputar meia perna. Apesar disso, nenhuma mágoa, nenhum rancor e um olhar ameno e afetivo para a vida. Inspirador, esperançoso.

Manoel da Conceição, nascido em 1935, comemorou dia 26 de julho 85 anos vividos intensamente. Foi um militante ativo das Ligas Camponesas, experiência que Josué de Castro chamara de segunda descoberta do Brasil. Deixemos a dúvida sobre a primeira descoberta, mas o fato é que as Ligas Camponesas foi o momento onde o povo brasileiro descobriu o Brasil, ao pôr o dedo na ferida do fundamento da opressão e da exploração que está por trás da profunda iniquidade social brasileira: o latifúndio. Foi quando as classes sociais em situação de subalternização/opressão/exploração  se colocaram abertamente em cena à escala nacional em luta para superar essa situação. E com uma luta pela reforma agrária que se iniciou não reivindicando a terra como meio de produção, mas sim a terra como condição da dignidade humana. Afinal, ainda nos anos 1950, crianças morriam em grande número e eram levadas para serem enterradas em um caixão e, jogados seus corpinhos no túmulo sem o caixão, para que o caixão fosse reaproveitado para levar outra criança ao túmulo. Foi na luta para ter sete palmos de terra e um caixão, que seria título do último livro de Josué de Castro, que teve início, no Engenho da Galileia, Pernambuco, em 1955, o movimento das Ligas Camponesas.

Foi contra a força política das Ligas Camponesas e todo o significado que a luta pela reforma agrária tem para a verdadeira emancipação da sociedade brasileira que se deu o golpe empresarial-militar de 1964. E, com ele, veio a contrarreforma agrária da revolução verde e, depois, o agronegócio. Tornaram, com isso, o latifúndio produtivo e, assim, o latifúndio, além de concentrar prestígio e poder, como era desde o período colonial, passou também a concentrar riqueza, muita riqueza. Para isso, contou com a ajuda financeira do estado a montante, com polpudos financiamentos, no curso do processo produtivo com as infraestruturas e com amplo apoio científico tecnológico (Embrapa) e, a jusante, com o perdão das dívidas e do passivo ambiental. E com uma agricultura sem agricultores. 1970 foi o primeiro ano em que o censo demográfico brasileiro acusara que a população urbana se tornara maior que a rural! E essa contrarrevolução agrária não foi feita para que o Brasil comesse melhor. 

De toda área cultivada do Brasil, em 2018, nada mais nada menos que 78% se dedicaram às lavouras de soja, milho e cana de açúcar, que não se destinam à segurança alimentar do povo brasileiro que, como sabemos, tem como base o arroz, o feijão e a mandioca. Aliás, esses cultivos viram sua área diminuída de cerca de 20% da área total cultivada do país para menos de 8% entre 1988 e 2018. Mato Grosso, o maior produtor de milho do país, não comemora as festas de São João. Enquanto isso, no Nordeste, durante todo o mês de junho, do Maranhão à Bahia passando pelo CE, RN, PB, PE, AL e SE se come muita canjica, mungunzá, milho cozido, bolo de milho, pamonhas, curau, bolo de fubá e outras guloseimas do milho. Enfim, no Nordeste temos agri+cultura, com muita gente dançando e muitos camponeses “abandonando a enxada” para ganhar durante um mês o equivalente à renda monetária de 6 meses tocando um zabumba, um triângulo e uma sanfona. Em Mato Grosso não se tem agri+cultura, mas sim agro+negócio, pois a agricultura sem agricultores não tem gente para comemorar a colheita fazendo e comendo aquelas guloseimas. Manoel da Conceição desfruta com alegria esses momentos de festa que antecipam, aqui na terra, o dia da redenção. 

Pois é, Manoel da Conceição depois de preso e torturado teve a sorte de sair vivo das garras da ditadura, mas teve que amargar exílio. Com isso, ampliou seus horizontes na compreensão das lutas emancipatórias em outras latitudes. E, nos inícios dos anos 1970, Manoel foi convidado a fazer um curso longo de Teoria Revolucionária na China. Mao Tse Tung, sabendo da importância política do Brasil o convidou para uma prosa ao final do curso, com o que Manoel se sentiu honrado de estar ao lado do Grande Timoneiro que liderara a maior Revolução Camponesa jamais havida no mundo.

Dessa conversa Manoel traz um aprendizado profundo que lhe fora sugerido por Mao. Foi ele que me contou. Disse Mao: Volte ao Brasil, companheiro, mas esqueça tudo que você aprendeu nesse curso aqui. Não tente aplicar nada. Volte ao teu povo e junto com ele, nas suas lutas, se alguma ideia desse curso servir, você vai saber aproveitar. Afinal, é nas lutas que as classes se forjam e é no conflito, isto é, das contradições em seu estado prático, que as teorias podem ser matéria viva.

Manoel tomava isso como uma orientação que o convidava à responsabilidade e a não ser um aplicador de teoria alheia. Conversa de camponeses que sabem trocar sementes. Afinal, a semente para vingar não depende só do meu trabalho, mas também da natureza da terra e da cultura do povo. 

Vida Longa a Manoel da Conceição que encarna o que tem de melhor um brasileiro nordestino. É, antes de tudo, um forte!

 

Carlos Walter é professor Titular do Departamento de Geografia da UFF. Co-Ordenador do LEMTO – Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades. Ganhou o Prêmio Casa de las Américas, La Habana, Cuba, em 2008 e o Prêmio Chico Mendes em Ciência e Tecnologia, do Ministério do Meio Ambiente do Brasil em 2004.