Bolívia: os recursos da ditadura

2 de Janeiro de 2020, por Atílio Boron


A gravíssima situação em vigor na Bolívia tem múltiplas manifestações, cada qual mais aberrante. Todas elas têm um denominador comum: a violação sistemática dos direitos humanos, as liberdades públicas e os direitos e garantias individuais. Estes são os resultados previsíveis de todo regime ditatorial, como o do governo que hoje se apoderou da Bolívia. Trata-se de uma ditadura imposta por um golpe militar à moda antiga e desprezando as ferramentas mais subtis do "golpe suave". Ali o protagonismo não coube a juízes e legisladores corruptos e sim aos polícias e militares que desde há décadas são adestrados e equipados pelos Estados Unidos. Foram eles os verdugos do golpe de estado que destruiu não só um governo como a democracia laboriosamente conquistada na Bolívia.

É óbvio que esta operação estava em gestação desde há muito tempo, como o demonstra a frustrada tentativa de golpe e secessão de 2008. Este projecto nunca foi arquivado e foi actualizado no ano passado em vésperas da eleição presidencial, com a inestimável colaboração dos media – esmagadoramente nas mãos da oposição – que actuaram como ponta de lança do golpismo, criando o "clima de opinião" que justificaria o assalto ao Palacio Quemado pelas hordas fascistas. Mas ao contrário de 2008 desta vez nada ficou entregue ao acaso: Os Estados Unidos jogaram forte e nos princípios de Setembro enviaram nada menos que Ivanka Trump à província nortista argentina de Jujuy num avião carregado de armas, apetrechos para produzir distúrbios e dinheiro – muito dinheiro – para contratar os gangsters que sob o comando de Luis F. "Macho" Camacho assolaram as principais cidades e criaram o caos social requerido para justificar o golpe e sua irrupção no Palacio Quemado a ostentar uma Bíblia, exorcizar a Pachamama e ultrajar a wiphala . A "doação" da Casa Branca foi enviada a Santa Cruz de la Sierra, centro de operações dos supremacistas brancos, racistas até à medula, e dos agentes estado-unidenses a operarem na Bolívia.

Mas a Bolívia vai mais além de uma vingança da minoria branca e dos mestiços colonizados contra os indígenas despertados por Evo. Não se pode ignorar que esse país é uma presa muito cobiçada pelo império por muitas razões, mas sobretudo por albergar em suas entranhas o mais importante depósito de lítio do mundo. E este recurso adquiriu uma importância excepcional devido à sua crescente utilização pela novas tecnologias militares, o que é plenamente reconhecido em relatórios de diversas agências do governo dos Estados Unidos.

Considerando que o preço do lítio em 2012 era de 4.220 dólares por tonelada (tendo chegado a 16.500 em 2018), o banco HSBC estima que em fins desta década oscilará em torno dos 10 a 12.000 dólares. Assim como todas – repito: todas – as intervenções dos Estados Unidos no Médio Oriente tiveram como finalidade exclusiva a pilhagem das imensas reservas petrolíferas dos países da área, seu envolvimento activo no golpe na Bolívia tem um nome só: lítio. E um recurso que já é estratégico para a indústria militar estado-unidense obriga a abandonar todo escrúpulo legal ou ético, como já ocorrera no Iraque, na Líbia e na Síria. E, em consequência, massacrar um povo indefeso, incendiar os lares dos colaboradores de Evo, raptá-los sequestrando seus familiares, sequestrar e desaparecer opositores, persegui-los como se fossem animais ferozes e liquidar toda fonte de informação independente está no repertório de políticas do império e seus lacaios. Áñez, Murillo, Camacho, Mesa aplicam-no e continuarão a fazê-lo no futuro previsível, a não ser que uma enorme insurreição popular ponha fim a tal nefasto regime.

Entre estas políticas figura a perseguição renhida de altos funcionários do governo Evo asilados na embaixada do México em La Paz, aos quais nega-se a emissão de um salvo-conduto para que possam abandonar o país sem prejuízo da sua integridade física. Trata-se do ministro de Governo Juan Ramón Quintana; do intelectual e ex-ministro Hugo Moldiz; da ministra de Culturas Wilma Alanoca; do governador de Oruro Hugo Vázquez; do director de governo electrónico Nicolás Laguna; do ministro da Defesa Javier Zavaleta; do da Justiça Héctor Arce; o da Mineração Félix César Navarro; e o vice-ministro do Desenvolvimento rural e agropecuário Pedro Damián Dorado.

A brutal ditadura instalada pela Casa Branca e seus sinistros comparsas autóctones actua como as máfias: capturando reféns para poder assim cometer suas malfeitorias sem impedimento algum. É crucial que a pressão internacional obrigue a satrápia instalada em La Paz a por fim a essa prática. Impõe-se a necessidade de que os organismos de direitos humanos de todo o mundo, tanto privados como oficiais e incluindo também os do sistema das Nações Unidas, pressionem os golpistas para que cessem as perseguições políticas e concedam os salvo-condutos aos que os requeiram. E também que façam saber a Áñez e seu bando que seus crimes não ficarão impunes e que mais cedo do que tarde deverão prestar contas deles perante algum tribunal. E sua condenação, estamos certos, será exemplar.