A Bolívia em conflito

5 de Novembro de 2019, por Elaine Tavares

Helicóptero presidencial falhou e piloto fez pouso de emergência
Helicóptero presidencial falhou e piloto fez pouso de emergência

Quem conhece a história sabe muito bem como os agentes secretos estadunidenses trabalham contra o que seus governantes consideram inimigos. Tenta-se de tudo: guerra econômica, bloqueio, campanhas midiáticas de difamação, invasão, tudo. Quando não dá certo, mata-se o líder. É a receita básica. “Acidentes” de carro e de avião são bem comuns, quando não o envenenamento. Ainda está bem viva na memória a desaparição de Omar Torrijo, presidente do Panamá,  em um "acidente" de avião, justamente porque lutava para retomar o canal. E assim vão semeando o terror pelo mundo. Fidel Castro, considerado pelos Estados Unidos o inimigo número um dos EUA durante muitos anos sofreu mais de 600 tentativas de assassinato. Por sorte e por competência do serviço cubano de proteção sobreviveu a todas, morrendo só quando lhe deu a gana. 

Ontem, na Bolívia, foi a vez de Evo Morales sentir o arrepio da morte em um inusitado “acidente”. O helicóptero no qual estava teve uma falha mecânica e por perícia do piloto não se estatelou no chão. 

Evo Morales é a bola da vez. Governa a Bolívia desde 2006  e vem se mantendo no cargo a partir de eleições sucessivas. Vive o processo democrático do mesmo jeitinho que vive a governante alemã, Angela Merkel, no cargo desde 2005, sem que ninguém a acuse de ditadora ou de fraudar eleições. Mas, a Evo, sim. E não é apenas porque ele é um cocaleiro, um índio. É porque ele decidiu se despegar da cola do império. Um pouquinho só. E isso já é suficiente para que seja derrubado.  A Bolívia nacionalizou o gás, investiu no país, promoveu mudanças importantes para a população mais carente. E por causa disso enfrenta o ódio dos fazendeiros e dos racistas da região de Santa Cruz, os mesmos que hoje conduzem os protestos contra Evo alegando que ele fraudou as eleições.

Nos jornais bolivianos os maus perdedores, sim, perderam as eleições e não aceitam isso, são chamados de “cívicos”. Como se estivessem defendendo a democracia e o país. Quando na verdade tudo o que querem é voltar ao poder para poder se apropriar privadamente das riquezas do país. 
Evo Morales resiste e tem muita base popular ainda. Mas, a guerra está aberta no país. Os chamados “cívicos”, que nada mais são do que a velha elite, estão colocando fogo nas comunidades, incitando à rebelião. Claro que têm por trás todo o staff de “produtores de crise” financiados pelos Estados Unidos.
Olhando para a Bolívia a realidade não poderia ser diferente. Evo Morales, ainda que tenha tomado algumas decisões importantes no plano estrutural, seguiu manejando a ordem do capital. E se conseguiu se descolar um pouco do império, não conseguiu se descolar do sistema que o mantém como império. Logo, o fracasso estava anunciado. Evo não aprofundou a revolução cidadã a ponto de garantir poder ao povo, não enfrentou o problema da corrupção nas suas fileiras, e não criou novas lideranças para avançar na construção de um país novo, plurinacional. Estava óbvio que só suas políticas de combate à pobreza, sem o ataque às causas estruturais, iriam fazer água. O império não tem piedade e os trabalhadores não são bobos. 

Agora, a eleição vencida por uma diferença bem pequena, colocou o país em um turbilhão. O descontentamento com a falta de profundidade da revolução levou muita gente a confiar no canto da seria da velha elite, que segue trabalhando firme em todo país para voltar ao poder. O tema da eleição – e a acusação de fraude  -deu o motivo para que as lideranças da direita pudessem promover a tão sonhada desestabilização de um país que era um dos poucos da região que vinha apresentando crescimento econômico. Importante lembrar que isso foi tentado em 2008, pelas mesmas lideranças de direita, tendo sido rechaçado pela população. 

De qualquer forma, a população da Bolívia hoje está envolvida nesse conflito. E o acirramento proposto pelos chamados “cívicos” apontam dois caminhos muito duros: ou o golpe de estado tradicional ou a guerra civil. 

Evo Morales tem apoio e há uma massa de gente hoje guardando, inclusive, o palácio presidencial, na Praça Morillo. A tentativa de assassinato ontem, com a “falha” no avião coloca o conflito em outro patamar. 

O fato concreto é que a Bolívia, que seguia quase incólume diante dos ataques conservadores que se verificavam em outros países da América do Sul, agora está em ebulição. E isso implica numa paralisia porque há que empreender esforços para defender o governo. Resta saber se a população vai responder ao chamado da direita. Analistas locais observam a movimentação dos líderes de direita e afirmam que internamente estão mais fracos do que em 2008, mas a batalha continua. 

As lideranças dos “cívicos” realizaram ontem, em Santa Cruz, um ato público, no qual chamaram a população a fechar as fronteiras e a cercar as instituições, visando aprofundar a crise institucional. Também conclamaram uma marcha saindo desde El Alto até a casa presidencial. Resta-nos acompanhar para ver o que acontece.  Para onde irão os bolivianos?