A aposta de Bolsonaro

28 de Março de 2020, por Arland De Bruchard Costa

Sistema de saúde se prepara, mas pode não aguentar
Sistema de saúde se prepara, mas pode não aguentar

Há apenas duas variáveis que movem a decisão dos governos em determinar a quarentena a seus povos em meio à pandemia da Covid-19: 1) O número de vidas que podem ser salvas com a medida; 2) O impacto que a paralisação econômica vai trazer. A solução dessa equação envolve um difícil cálculo político. Embora o vírus e as ações para combatê-lo sejam iguais em todo o mundo, a pandemia é desigual e sua evolução será marcada por questões nacionais, como a qualidade do sistema de saúde, a resposta das autoridades em cada momento de evolução da doença, a distribuição demográfica da população, a capacidade financeira do Estado e etc.

Assim, mesmo com os dados mais atualizados sobre o padrão de evolução do vírus, ainda é impossível afirmar o que ocorrerá nos países subdesenvolvidos nessa crise. A Índia, a América Latina e a África estão apenas em estágio inicial e a evolução da doença só possui um padrão estabelecido em países com capacidade de resposta muitas vezes superior. O ciclo do corona vírus na China, Inglaterra, Itália e Espanha pode basear algumas estimativas e análises estatísticas para os subdesenvolvidos, mas é impossível prever com exatidão a capacidade de resposta dos países que possuem os piores sistemas de saúde e onde a quarentena vai impor os maiores sacrifícios porque é onde se encontra a população mais miserável do mundo.

Nesses países, os Estados Nacionais dificilmente poderão garantir alguma dignidade aos desamparados – a vida sem pandemia já é um vale de lágrimas. Não há líder na África, América Latina ou Índia que tenha a seu dispor uma máquina de construir hospital e fazer testes em massa como o Estado chinês, ou que seja capaz de garantir até 2.500 libras mensais a todos os empregados do país que não trabalharem como o Reino Unido.

Mesmo assim, cientes da catástrofe social a que estamos nos aproximando – e o custo político que ela vai impor aos governos que não tomarem medidas – o que explica que em um intervalo de poucos dias quase todos os países da África (1,2 bilhões de habitantes), da América Latina (570 milhões) e a Índia (1,3 bilhões) tenham colocado seus cidadãos em rígida quarentena? Com dados e projeções na mão, quase todos os governos dos países subdesenvolvidos estão tomando medidas de confinamento porque o custo econômico e social da quarentena é infinitamente menor do que o custo decorrente da livre circulação, mesmo nos casos em que as particularidades nacionais elevam o custo político da paralisação econômica.

No Brasil, vivemos uma situação muito particular: todos os 27 governadores seguiram o consenso que se formou no mundo e impuseram o isolamento social à população de seus estados com apoio do Poder Legislativo e Judiciário. As forças policiais foram às ruas cumprir as determinações: só funciona o essencial. O Presidente da República se opôs às medidas em seguidas declarações até terça-feira (24/03), quando convocou a rede de televisão e rádio para registrar sua discordância e apenas isso. Entregou o poder aos governadores, reclamando inerte. Claro que seu exemplo, sua opinião e sua palavra têm força, mobilizam gente, autorizam simbolicamente que as pessoas saiam às ruas. Mas o fato é que o Bolsonaro falou, falou, falou e não fez nada para acabar com o confinamento; não tentou anular os atos dos governadores, não chamou o STF a normalizar a situação do país, não usou as Forças Armadas que comanda para garantir a volta do país à rotina normal a despeito dos governadores e suas forças policiais.

Há aqui uma razão, um método. Não é loucura nem despreparo, mas uma estratégia política arriscadíssima. Assim como os governadores, Bolsonaro tem acesso aos melhores dados e projeções da saúde e da economia no país. Tem também pesquisas de opinião precisas e forte interlocução com todos os setores da burguesia brasileira, que orientam o passo dado em cada momento. Com essas informações em mãos, Bolsonaro decidiu que não vai agir contra a quarentena, mas vai se posicionar contrário a ela porque aposta que o custo político de ser associado à paralisação econômica vai ultrapassar largamente o de ser responsável pelos mortos que virão.

O Presidente pode ter razão. É possível que quando a humanidade vencer o Corona, a destruição econômica no Brasil cause mais comoção à população do que o número de mortos pela doença. Bolsonaro arrisca-se muito, porque esse cenário só vai ocorrer se a quarentena for extremamente eficiente. A aposta do governo – e é provável que ela se materialize – é de que a paralisação econômica em algumas semanas levará o país a convulsionar com desempregados e esfomeados gerando o caos absoluto e, nesse cenário, Bolsonaro fica com o trunfo de ter lutado contra o sistema – a mídia, os governadores, o STF, os médicos, o Legislativo – para evitar o colapso.

Pela estratégia adotada, o cenário ideal para Bolsonaro é a quarentena dar certo e segurar o número de mortos na casa de alguns milhares enquanto a paralisação econômica se transforma em grave rebeldia popular, com saques a mercados e farmácias, confusões em pontos de atendimento de enfermos, trancamento de vias, roubo de cargas nas estradas. A cereja no bolo para o Presidente é que o sistema – a mídia, o STF, o Legislativo, os partidos políticos (principalmente o PT) – passe a pautar seu impeachment no momento em que o país atravessa a maior crise de sua história. Nesse cenário, Bolsonaro teria até certa legitimidade para impor, ao menos temporariamente, a força militar e procedimentos de exceção para conter a anarquia.

No pior cenário para Bolsonaro, dezenas de milhares de brasileiros sucumbirão ao vírus, outros tantos de enfermidades e acidentes que não poderão ser tratados por um sistema de saúde colapsado. Pior ainda será se algum governador resolver seguir suas orientações e desfazer a quarentena imposta à população de seu Estado. Se isso ocorrer, a catástrofe sanitária sem precedentes geradas apenas nos pontos do país que seguiram o Presidente não deixarão margem para qualquer dúvida sobre a perversidade de suas ações. Nesse caso, Bolsonaro não terá qualquer condição de seguir no cargo para administrar o país e, quando o corona for vencido, será deposto.

Entre o melhor e o pior cenário, há uma infinidade de possibilidades. A conjuntura se acelera e cada dia e a política avança o que demoraria meses para avançar em situação de normalidade. Dito isso, é possível afirmar que hoje (28/03), pressupondo que a ciência não apresente resposta adequada ao corona nos próximos meses, e levando em consideração 1) os dados disponíveis ao público e 2) a ação da maioria dos presidentes de países subdesenvolvidos e todos os governadores brasileiros, o cenário mais provável é trágico para o Brasil e é politicamente péssimo para Bolsonaro, cuja estratégia é dependente de uma crise sanitária não-tão-brutal.